Por Rafael Pinto Borges
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“Isto é que é muito importante. É que existiu, e continua a existir, um Oriente português que nada tem a ver com a política. Eu há muitos anos publiquei um livro chamado “A formação do espaço português” em que acentuo exactamente isso: Portugal não era um Estado, não era uma organização política. Era uma ideia, era um “espaço de missão, como eu lá chamo. Onde quer que houvesse portugueses e se rezasse em português, eles diziam que eram portugueses. Essa ideia continua hoje a ser verdadeira.”

«O principal responsável por esta exposição, o dr. Miguel Castelo-Branco, contou-me há momentos que quando apresentou o seu passaporte lá na alfândega [na Tailândia], o funcionário viu e disse: “Português? Ah, tem graça. Eu também sou português”. Ele ficou espantado com um asiático que lhe dizia que era português e lhe falava em inglês e disse “Mas português porquê?” “Bom, eu também sou cristão.”»

“A ideia da Portugalidade, do império português, não tem nada a ver com organização política, com obediência a um senhor. Não, é uma ideia espiritual. É uma comunidade de gente que acredita talvez no mesmo Deus, embora sob formas muito diferentes, é uma comunidade dispersa pelo mundo. E isso lembra muito a comunidade judaica. O espaço português não é um Estado, não é um país, não é um império, não é um domínio. Não, é sobretudo uma ideia. E isso continua a ser. Continua a haver a ideia de um Portugal, de um português que eles [os portugueses do Oriente] não sabem já bem o que é. Ligam vagamente com tradições religiosas, com o culto de antepassados, com vários viajantes que ali passaram. E os nossos diplomatas, com toda a razão, sublinham a urgência política que é organizar, dar consciência, dar instituições a essa realidade espiritual e cultural que persiste na Ásia apesar de todas as transformações políticas.”

José Hermano Saraiva em “A Alma e a Gente”, emissão de 5 de Fevereiro de 2005 sobre “Os portugueses do Oriente”

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