Por Nova Portugalidade
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Bergman atingiu, no seu país, um estatuto que em Portugal não conferimos aos realizadores de cinema. Era uma figura pública, uma estrela. As câmaras dos jornalistas esperavam, a todo o momento, o seu próximo divórcio ou passo em falso. O mais próximo que tivemos disto passou-se em Abril de 2015, quando as televisões seguiram, quase milimetricamente, o funeral de Manoel de Oliveira. E não se enganem, que não acontecerá de novo, por mais festivais que conquistemos. Bergman trouxera Oscars para a Suécia; a nação pagava-lhe em paparazzis. Por este motivo, quando foi acusado de fuga ao fisco, na década de 70, a acusação assumiu contornos de traição. Bergman não era apenas um desinteressado da política: era-o também das finanças, da economia, das burocracias… E os seus advogados, seres em quem não se deve confiar, tinham-no conduzido a esse hábito dos ricos e famosos que é o crime fiscal. Bergman não passava dificuldades, mas não vivia desafogadamente, muito por ter quase uma dezena de filhos e suas mães a seu sustento. Mas era um homem traumatizado a quem o sucesso trouxera algum conforto. Calma e satisfação. Catalogado de criminoso, com as autoridades nacionais a seguir-lhe as pegadas, procurando provar o dolo da sua actuação, Ingmar Bergman viu-se forçado ao exílio. A juntar a todos os horrendos traumas com que lidava até essa data, Bergman era, agora, como um Príncipe sem coroa, como um académico do regime sem cátedra, um exilado.

O exílio de Bergman esteve nas luzes da ribalta. Os produtores internacionais, incluindo a família di Laurentiis, estavam atentos. Como toda a Hollywood – Bergman chegou a ser convidado para a festa na piscina de Barbra Streisand, uma das razões que levou à sua fuga dos Estados Unidos. À porta dos luxuosos hotéis parisienses, à passada do sueco, os fotógrafos estacionavam. Bergman, poeta, criminoso, exilado. Meu Deus, que capa. O Primeiro-Ministro sueco, sim, o homem que mais tarde veio a ser assassinado à saída do cinema, Olof Palme, abriu os noticiários, para falar sobre o Caso Bergman. Com certeza isto terá vindo à cabeça do realizador quando, uma década depois, lhe disseram: “mataram Palme”, enquanto dirigia um ensaio. Toda esta conjuntura e uma frase, proferida em Munique: “Nunca mais volto à Suécia”. O exílio, mesmo o voluntário, traz consigo uma mágoa imensa: o sentimento de abandono dos que perdem a casa. Nacionalismos à parte: aquele que não pode voltar a casa é um andarilho. Nada se ganha em “ser do mundo”. A acção para com o mundo tem de ser pensada e organizada no quartel-general, que é a fortaleza que tem lareira, luz ténue, livro na cabeceira, e a casa à qual podemos atribuir o nosso nome. Bergman, exilado, não o teve. Os filmes desse tempo são a prova.

Mas, como todos os homens que proferem decisões definitivas, Bergman revogou a sua. A coerência não é característica dos homens sentimentais. A casinha que construíra para filmar Persona, na década de 60, foi o seu lar depois do regresso. Até à sua morte, em 2007. A Ilha de Faro acolheu as últimas, e por isso fundamentais, questões da figura pública que era Ingmar Bergman. Cada vez menos público, com a sua solução legal acordada, e retornado à pátria, foi a partir da Ilha que coordenou todos os seus projectos mais tardios. Sair de Faro para receber alguém em Estocolmo, por exemplo, parecia impensável. Por isso, não dispensou a Manoel de Oliveira o mesmo tratamento que dispensou, muito mais cedo, a Charlie Chaplin. Com o primeiro teria muito mais em comum; também o primeiro se moveu, embora dentro do próprio país, por motivos traiçoeiros: os crimes dos trabalhadores nas fábricas na fase revolucionária obrigaram-no a vender a casa. Um homem que perde a casa da sua vida inteira é um exilado em menor escala. O funeral de Bergman foi sóbrio; creio que não houve transmissão, estiveram os amigos e actores. O caixão de Bergman é simples e despojado. Os tesouros que pagam a entrada no Céu estão dentro. Dentro, na alma de um homem sofredor. Talvez porque deu muito mais ao mundo do que o mundo lhe deu a ele. Sem ter sido um piedoso homem que se decidiu doar. Doou-se porque foi uma marioneta da destruidora história. Fosse assim a vida de todas as marionetas.

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