Por Rafael Pinto Borges
Posted: Updated:
1 Comment

Nascido em Kagoshima, no extremo sul do arquipélago nipónico, Bernardo terá sido dos primeiros autóctones daquelas ilhas a abraçar a religião dos Nanban – palavra japonesa que significa “bárbaros do sul” e que se referia aos portugueses. Converteu-se pela palavra de São Francisco Xavier, que naquela terra andou caçando almas por dois anos. Quando o evangelizador navarro abandonou o Japão, em 1551, Bernardo – esse nome escolhera ao fazer-se neófito cristão – foi com ele e acompanhou-o para Macau, Malaca e a Índia. Outro japonês convertido por São Francisco, um tal Matias, veio a morrer em Goa. Decidiu-se então que o converso sobrevivente deveria fazer-se às ondas e rumar à Europa, onde lhe seria oferecida a experiência de conhecer Portugal e seus costumes, dominar a língua, visitar os lugares santos, ver Roma, descobrir as glórias da arquitectura e ciência europeias e tomar prova da riqueza e força da Europa cristã. Em 10 de Abril de 1552, explicava Xavier ao Padre Simão Rodrigues, co-fundador da Companhia e uma das suas mais relevantes faces: “Matias e Bernardo (…) seguiram-me até às Índias, com o propósito de rumarem a Portugal e à Itália, e particularmente à própria Roma (…) para verem a religião cristã em toda a sua majestade. (…) Eles [os japoneses] são muito pobres, mas de muita fé. O intelecto japonês é tão agudo e sensível quanto qualquer outro no mundo.” Seguiu-se longa e exigente viagem para Portugal que deixaria o nipão fisicamente muito depauperado.

O japonês foi o primeiro do seu país a ver a Europa. Adentrou o Tejo em Setembro de 1552, tentou o ingresso na Companhia de Jesus e estudou no colégio que os inacianos mantinham em Coimbra. Lá andou por dois anos, atravessando depois a Espanha até Barcelona, de onde embarcou para Nápoles. De Nápoles, então cidade espanhola – e uma das maiores urbes da Europa – Bernardo viajou para Roma, onde ficou por dez meses. Assistiu à eleição do Papa Marcelo II, que se interessou muito pelo asiático e lhe dispensou muitas atenções. Se Bernardo ainda se achava em Roma quando Marcelo faleceu, vinte e dois dias após o início do seu pontificado, é dúvida que nos não é esclarecida pelas fontes disponíveis; o que se nos mostra claro é que Bernardo regressou a Lisboa após o encontro com o Santo Padre, com toda a probabilidade para retomar em Coimbra o labor académico que interrompera com a sua peregrinação italiana.

Parecerá rude ironia que visitante de terra tão distante tenha vindo a morrer tão pouco tempo após o passamento de dois Papas, pois ver o Papa fora, afinal, um dos propósitos da longa viagem. Contudo, assim foi com Bernardo. Não surge evidente o que o vitimou, mas parece, inexistindo informação que indique fim mais dramático, provável ter sido maleita natural a conduzi-lo à tumba. Morreu em Lisboa ou Coimbra, divergindo as fontes quanto ao assunto. Foi, no fundo, fim profeticamente desanimador do início de empresa – a cristianização do Japão – que muito entusiasmaria os portugueses, muitas energias concitaria, muitos mártires devoraria e muito fruto acabaria por deixar para a posteridade. Não que, como por vezes se diz, a Companhia tenha encontrado no Japão terra infecunda à sementeira de novos cristãos: Portugal fez, segundo as estimativas conhecidas, trezentos mil católicos no arquipélago japonês, ergueu infinidade de colégios, criou igrejas, desenvolveu hospitais e fecundizou de ideias novas – na medicina, na astronomia, na filosofia – ilhas tradicionalmente fechadas sobre si. O destino do Japão cristão – Japão esse que teve em Bernardo, nado em Kagoshima e morto em Coimbra – foi, todavia, cruel. Décadas após o início da evangelização, em 1549, os japoneses expulsariam violentamente os portugueses e a fé católica por eles trazida; as igrejas foram queimadas, os colégios arrasados, as feitorias portuguesas encerradas, as naus atacadas, os missionários presos, torturados e mortos, os conversos massacrados e forçados à reconversão. Assim, afogados em sangue e cobertos de fumo espesso, foram os dias derradeiros do Japão de que Bernardo foi um dos primeiros filhos. Mas o seu nome, como a sua vida extraordinária, nem por isso deixam de ser os do primeiro Japão que viu a Europa, por um lado, e, por outro, o do Japão – cristão, católico, trazido a estreita relação de irmandade cultural com Portugal – que poderia ter existido.

Related Posts

Magalhães – um dos insignes navegadores de que há memória – continua a estar no centro da polémica. É...

Senhora von der Leyen, Candidata à Presidência da Comissão Europeia Lemo-la dizendo que «o seu...

No Século XVIII estados magrebinos como Tunis, Argel e Tripoli estavam verdadeiramente infestados...

One Comment
 
  1. É verdadeiramente impressionante como a História corrobora a ideia de que foi Ele próprio, o nosso Deus, que guiou os nossos avós na tão nobre missão de evangelizar os confins da Terra.
    Não menos impressionante é, a meu ver, o facto de esta ‘cruzada’ portuguesa em terras nipónicas culminar com a chegada primeira de um neófito japonês de nome Bernardo, nome esse que é o mesmo do padroeiro dos Cavaleiros da Ordem do Templo, São Bernardo de Claraval, que ajudou D. Afonso Henriques e os restantes combatentes ibéricos na Reconquista da nossa terra.

    É nos tempos de crise que a consciência nacional se revigora. É agora, nesta incerteza dos tempos por nós vividos, que devemos olhar para o passado e, orgulhando-nos nele, projectar o que outrora nos impeliu a rasgar os mares e a salgar uma terra que só mais tarde viria a gerar os frutos que os Lusitanos deixaram.

    Verdadeiramente comovente.

Leave a Reply