Por Gonçalo Palmeira
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Poucos eventos históricos marcam tanto a memória coletiva e o imaginário português como a Batalha de Aljubarrota. Símbolo maior da resistência portuguesa à perda de independência e autonomia, fica na memória dos portugueses como a grande vitória face a um inimigo muito superior, a quem a força dos números e das armas pouco valeu perante aqueles homens movidos pela defesa da liberdade do seu Reino. Apesar de todas outras batalhas que tomaram lugar naqueles anos foi Aljubarrota que ficou no coração dos portugueses como o culminar da vitória portuguesa sobre o invasor, o grito de liberdade que negou a tutela castelhana.

Como é sabido a Batalha de Aljubarrota deu-se no seguimento da crise sucessória que se instalou após a morte de D. Fernando, e que geralmente chamamos a crise de 1383-1385. As origens desta crise remontam aos primeiros anos do reinado d’el rei D. Fernando quando este, impulsionado por muitos nobres galegos e castelhanos, exilados na sua corte, decide invadir a Galiza após a guerra civil castelhana- na qual o seu primo fora assassinado e o trono usurpado por um bastardo- e reclamar o trono de Castela para si (em bom direito sucessório, sendo o bisneto legítimo de Sancho IV, cabia-lhe de facto o trono). Seria esta a primeira guerra fernandina, da qual Portugal não tirou qualquer proveito, à primeira seguiu-se a segunda na qual D. Fernando foi forçado a pedir a paz e à segunda seguir-se-ia a terceira guerra fernandina. Esta última com um travo forte a derrota, D. Fernando que procurava afastar-se de Castela e França aproximando-se no plano político da Inglaterra (lembremo-nos que estamos em plena guerra dos Cem Anos) vê as suas ambições fortemente abaladas e pouco depois adoece. Nesta conjuntura forma-se na corte um partido, agora, pró-castelhano liderado pelo conde de Andeiro e pela rainha que vai dar D. Beatriz (única filha do rei) em casamente a D. Juan de Castela no ano de 1383, ano em que morre D. Fernando ficando a sua mulher como regente.

Ainda não arrefecera o corpo do rei já a revolta estalava por toda a parte, o conde de Andeiro é morto por um grupo de nobres chefiados por D. João (um dos filhos bastardos de D. Pedro I) enquanto em muitos pontos do país o povo sublevava-se contra a regência de D. Leonor e contra D. Beatriz. A desordem era tal que D. Leonor tem de apelar ao auxílio do genro, perdendo a regência no processo, acabando Portugal invadido. D. João mestre de Avis encabeça a revolta, contando com o apoio dos meios urbanos de Lisboa e Porto e grande parte da plebe, bem como de filhos segundos, bastardos e nobreza de categoria inferior; por seu turno D. Juan tinha também em Portugal muitos partidários seus, especialmente no Norte senhorial. Apesar do imenso poderio de Castela os revoltosos, liderados pelo jovem D. Nuno Álvares Pereira, infligem no dia 6 de Abril de 1384 a primeira derrota aos castelhanos na Batalha dos Atoleiros, enquanto o povo lisboeta aclamava D. João «regedor e defensor do reino». Nos finais de Maio os lisboetas pagavam a ousadia com cerco castelhano por terra e por mar, do qual só foram salvos pela peste que matou muitos combatentes de D. Juan, que foi por isso forçado a retirar; mas a guerra ainda não terminara.

Após a partida de D. Juan, o Mestre de Avis aproveita para consolidar a sua posição no reino, sendo aclamado rei pelas Cortes de Coimbra e D. Nuno feito Condestável. Entre Abril e Maio de 1385 o rei e D. Nuno submetem parte do Norte e das praças fiéis ao rei de Castela, enquanto este organiza várias incursões contra território português, que na sua generalidade são mal sucedidas. O rei de Castela está, contudo, longe de desistir da sua pretensão e refaz os seus planos, desta feita a resposta seria terrível.

Nos finais de Julho D. Juan I invade de novo Portugal, cruzando a fronteira em Almeida para depois esperar que todas as suas tropas se reunissem em Celorico da Beira e daí seguiu para Coimbra e Soure deixando atrás de si um rasto de destruição. D. João desceu com a hoste portuguesa de Guimarães para se instalar em Abrantes de onde acompanharia os progressos do inimigo. O objetivo dos castelhanos seria já evidente para o monarca português, atingir e cercar Lisboa, perdida a capital D. João sabia que estava também perdida a sua causa.[1]

Restava decidir o que fazer, como responder aos castelhanos. Entre as muitas hesitações esboçou-se um ataque de diversão à Andaluzia, apoiado pela maioria dos conselheiros, mas acabou por ganhar o partido de D. Nuno que defendeu a interceção do exército inimigo (chegando a partir com os seus homens do acampamento, uma vez que o rei não se decidia a combater). O exército português parecia pequeno para enfrentar os castelhanos em campo de batalha, mas fá-lo-iam na mesma, D. Nuno e o rei estavam dispostos a arriscar tudo numa batalha campal. Esta teria de ser travada num ponto ainda distante de Lisboa mas ao mesmo tempo distante de Castela de forma a fazer os inimigos sentir os embaraços resultantes da distância das suas bases de apoio.

Decididos, os portugueses avançaram até Porto de Mós- onde chegaram no dia 12 de Agosto- enquanto o exército castelhano procurava esquivar-se mais para o litoral, uma vez que o seu objetivo era chegar a Lisboa, optou por rumar para Alcobaça onde no dia 14 de Agosto D. João cortou-lhes o caminho e forçou-os a combater. Antes de chegarem ao campo de batalha o rei e o condestável sabiam já que as probabilidades não lhes eram vantajosas, há vários dias que os seus batedores e mensageiros os haviam informado da superioridade numérica da hoste inimiga, contudo, para a moral e a fé dos seus soldados não esmorecer fizeram correr a informação entre os portugueses que o exército castelhano não era muito numeroso nem estava muito bem equipado ou sequer moralizado. Naquela manhã muitos iam ver que estavam enganados.

Na manhã daquela segunda-feira, dia 14 de Agosto de 1385, os castelhanos partiram de Leiria em direção à vila de Santarém, quando nos arredores da Jardoeira os batedores de D. Juan o informam que a hoste portuguesa estava instalada ali perto, no topo do planalto de São Jorge, cortando-lhes ostensivamente o caminho. No cimo de uma cumeada ladeada por dois cursos de água, estavam dispostos os decididos soldados portugueses; segundo Fernão Lopes na sua Crónica de D. João I seriam 6500 mas João Gouveia Monteiro tem avançado a cifra de 10 000 homens, entre lanças de cavalaria, peões e besteiros, reforçados por experientes arqueiros ingleses. Quando surgiram os estandartes castelhanos no horizonte muitos foram surpreendidos pela dimensão da hoste inimiga. Segundo Fernão Lopes marchavam diante da hoste de D. João 31 000 homens, castelhanos, franceses e portugueses; segundo o cronista 6000 lanças de cavalaria, 2000 ginetes (cavalaria ligeira), 8000 besteiros, 15 000 peões e algumas peças de artilharia. Contudo esta cifra está provavelmente inflacionada sendo que o número de castelhanos estaria compreendido entre os 20 000 (avançados, mais uma vez, por João Gouveia Monteiro) e os 30 000 homens, sendo que muitos não chegariam a participar na batalha[2].

Perante D. Juan e seus homens estava a hoste portuguesa disposta num ponto elevado, com os flancos protegidos por cursos de água dos dois lados, para os alcançar teriam de subir por um terreno ingreme sobre uma chuva de setas e, além do mais, teriam de caminhar contra o sol, que os ofuscaria. O comando castelhano- cujo objetivo nem era travar batalha mas sim chegar a Lisboa- decide não aceitar o desafio e não avança perante uma situação tão desfavorável, decidem antes contornar o exército do rei português. Ao ver que o inimigo se furtava D. João e D. Nuno são obrigados a deslocar o seu exército- que estava virado para Norte- 2 quilómetros para sul, o que não foi fácil visto que tiveram de manter a formação tática de modo a vanguarda, retaguarda e alas ficarem nas posições corretas, não bastava dar meia volta e seguir na direção contrária. D. Juan depara-se com o exército português que lhe barrava, uma vez mais, o caminho mas agora no outro extremo do planalto de São Jorge, num terreno menos favorável aos portugueses. O rei de Castela e os seus homens já não teriam de subir um terreno tão inclinado com o sol a toldar-lhes a vista, e por isso, cabia-lhes aceitar o desafio confiantes que Deus estaria do seu lado e seriam vencedores; além do mais compreenderam que D. João estava determinado a travá-los e fustigar-lhe-ia constantemente a coluna de marcha caso não aceitassem o seu desafio[3]. Decidiu-se então o comando do rei de Castela por travar batalha e pôr fim àquele motivo de incómodo.

Foi enviada uma embaixada a D. Nuno Álvares, entre a qual estava Diogo Álvares Pereira seu irmão, que tinha como objetivo convencê-lo a abandonar D. João e juntar-se ao rei de Castela e, claro está, com o objetivo de inspecionar e recolher informação sobre os números e disposição das forças do rei português. As informações que trouxeram não foram animadoras, o terreno que os castelhanos julgaram ser-lhes favorável não o era de facto. Duas linhas de água continuavam a proteger os flancos do exército anglo-português e naquele ponto o terreno afunilava entre os dois ribeiros o que impossibilitava em grande medida os castelhanos de submergirem a hoste portuguesa com a sua superioridade numérica, tendo antes que enviar vagas em linhas de número mais reduzido conforme o terreno permitia.

Nun’Álvares inteirado das novas táticas e realidade militar- que no séc. XIV vinha a assistir a uma complexificação das batalhas, onde as cargas de cavalaria tinham vindo a perder a sua invencibilidade perante táticas e estratégias mais arrojadas[4]– vai dispor as suas tropas para, juntamente com o terreno, diminuir o potencial da superioridade numérica castelhana. Como na Batalha dos Atoleiros vai, à maneira inglesa, fazer desmontar os cavaleiros fortemente armados e dispô-los num dispositivo tático defensivo capaz de fazer frente à numerosa cavalaria dos castelhana, em suma, usar a estratégia contra pura força bruta[5]. Vai, por isso, dividir o exército português em duas grandes azes: a primeira az era composta pela vanguarda- liderada pelo Condestável com 600 homens de armas e uns milhares de peões- e pelas alas que se prolongavam para além da vanguarda de encontro ao exército inimigo, estas posições eram reforçadas com abatises, troncos de árvores empilhados com pontas afiadas, que ofereciam proteção aos combatentes- sendo as alas bem fornecidas com besteiros, e uma delas, com muitos arqueiros ingleses equipados com long bows a que se juntavam 200 homens de armas mais um reforço de peonagem em cada uma delas; a segunda az do exército era formada pela retaguarda- liderada pelo rei e formada pela sua escolta, 700 lanças e outros milhares de peões- posicionada umas centenas de metros atrás da vanguarda e que servia como uma espécie de reserva que acudiria as linhas da frente em caso de necessidade[6].

Sobre os muitos estandartes da fidalguia, o pendão real , o pendão de São Jorge, e sobre o calor de Agosto, os portugueses esperavam o inimigo que começava a tomar as suas posições. D. Nuno percorria a formação animando os homens, dando-lhes conselhos e lembrando-os que lutavam pelo seu rei e pela independência do reino, lutavam pela sua liberdade, mais atrás el rei D. João, com a cruz de Avis ao peito exortava os combatentes a confiarem em Deus, na Virgem e na justeza da sua causa, enquanto o arcebispo de Braga de cruz erguida abençoava os combatentes, lembrando-os que combatiam também uma guerra contra cismáticos- pois havia-se estabelecido nos inícios do séc. XIV a sede do papado em Avignon, o que acabou por dar origem a um cisma da igreja e há existência de dois papas, um em Roma (pelo qual lutavam os portugueses) e outro em Avignon (pelo qual lutavam os castelhanos) – inimigos do papa de Roma. A tarde ia-se alongando enquanto os combatentes esperavam com ansiedade o inimigo, D. Nuno especialmente pois tinha ainda uma surpresa preparada para os seus inimigos.

Diante da hoste de D. João formava-se já a vanguarda castelhana, composta quase exclusivamente pelos cavaleiros franceses enviados pelo rei Carlos VI em auxílio do seu aliado, totalizando mais de 1500 lanças. A prolongar a vanguarda, de ambos os lados, estavam as alas formadas por centenas de cavaleiros que teriam muita dificuldade em envolver o exército português, protegido dos dois lados por dois cursos de água com encostas íngremes mais os abatises que os portugueses haviam colocado. Por de trás da vanguarda a retaguarda demorava em formar-se à medida que milhares de homens tomavam as suas posições. A tarde já ia adiantada, por volta das 18:00 a vanguarda castelhana avançou[7], ao som de trombetas os majestosos cavaleiros franceses nas suas armaduras resplandecentes lançaram as suas montadas num tropel furioso com os seus muitos pendões a esvoaçar, começava a batalha real de Aljubarrota.

À distância os soldados portugueses assistiam certamente com nervosismo ao avanço impetuoso dos cavaleiros franceses, que avançavam metro após metro num imponente festival de cor, até que uns após os outros dezenas de cavaleiros tombaram aparatosamente como se o chão cedesse sobre eles, embrulhando outros tantos cavalos na queda. O que os castelhanos descobriram da pior forma foi que os portugueses haviam recheado o campo de batalha com buracos, conhecidos como covas-de-lobo, disfarçados- estas armadilhas haviam sido colocadas ou após os portugueses abandonarem a primeira posição enquanto esperavam pelo exército castelhano ou mesmo na noite anterior, pois como sugerem João Gouveia Monteiro e Luís Miguel Duarte, D. Nuno planeara desde o inicio combater naquele local sabendo que o inimigo não aceitaria lutar na primeira posição onde encontrara os portugueses[8]. Má hora para os arrogantes cavaleiros franceses desejosos de mostrar o seu valor e perfeitamente convencidos que forçaram os portugueses a deslocar-se para uma posição de recurso onde seriam massacrados perante o ímpeto da sua carga, desenganaram-se naquele momento enquanto se embrulhavam com as suas montadas em terríveis quedas, as covas-do-lobo mostraram-se verdadeiras “minas”[9]. Assim que ficaram sob alcance os cavaleiros franceses tiveram que contar também com uma chuva de setas proveniente das duas alas. Estas armadilhas haviam sido colocadas especialmente à esquerda e à direita de maneira a obrigar os cavaleiros franceses a avançar apenas por um corredor estreito que desembocava no centro da vanguarda portuguesa, desta forma tiveram de avançar uns atrás dos outros chegando em vagas pouco numerosas à linha da frente onde eram submergidos pelos soldados portugueses. Privados de usarem a sua vantagem numérica, massacrados pelas armadilhas e setas dos portugueses muitos cavaleiros foram ali mortos ou feitos prisioneiros e enviados para a retaguarda.

A umas centenas de metros D.Juan I de Castela, que estava muito doente e por isso imobilizado numa liteira, assiste ao massacre da sua vanguarda sendo obrigado a enviar o corpo central do seu exército- formado por 3000 lanças de cavalaria, e entre elas o grosso das forças portuguesas leais a D. Juan e D. Beatriz- juntamente com as duas alas. A tarefa dos combatentes castelhanos não seria fácil, não podiam lançar uma segunda carga pois diante de si debandavam centenas de cavalos e combatentes que fugiam das armas portuguesas, além do mais, teriam de enfrentar os mesmos obstáculos que os seus predecessores e enfrentar o “corredor da morte” que D. Nuno lhes oferecia. Perante estas circunstâncias os cavaleiros de D. Juan decidiram- como já haviam antes feito alguns cavaleiros franceses- desmontar e fazer os últimos metros do percurso a pé sobre o peso das suas armaduras e uma forte chuva de setas[10]. Não era só o corpo central que passava dificuldades, à esquerda e à direita as alas não conseguiam ultrapassar os dois ribeiros que protegiam os flancos portugueses ao mesmo tempo que uma chuva de projéteis os dissuadia ainda mais a avançar, em prática não conseguiam entrar em combate e estavam por isso inutilizadas.

Entretanto as primeiras linhas castelhanas vão sendo obrigadas a comprimirem-se face ao terreno afunilado e aos obstáculos, cansados pelo trajeto e sem a força das suas montadas os homens de armas de Castela investem contra a vanguarda do Condestável (que devido a esse afunilamento do terreno era já mais comprida que as linhas do inimigo[11]). Na violência dos primeiros embates quebram-se as lanças e desembainham-se espadas ou manejam-se maças-de-armas e machados, guerreiros fortemente armados lutam ferozmente, era matar ou morrer. Os castelhanos mais afastados da frente continuam a ser fustigados pelas setas que as alas portuguesas fazem chover sobre eles, e por isso, empurram os seus companheiros contra as armas portuguesas para escapar às setas comprimindo-se numa imensa massa desorganizada; tal foi a pressão exercida pelos combatentes das linhas mais recuadas que a vanguarda castelhana consegue mesmo entre golpes e estocadas romper as primeiras linhas portuguesas. Entusiasmados os castelhanos irrompem por esta brecha mas rapidamente a hoste português responde, os contingentes das alas- que não corriam qualquer perigo- “dobram” sobre a vanguarda de D. Juan atacando pelos lados e reforçam as linhas da vanguarda, ao mesmo tempo, D. João avança com parte da retaguarda. De maça-de-armas em punho D. João luta com os seus homens e o combate atinge o seu clímax, milhares de homens digladiam-se, quebrando escudos, furando armaduras, rachando elmos, morrendo às centenas. É então que o pendão real de Castela cai por terra, aquele bocado de tecido não podia fazer maior estrondo. Ao verem desaparecer as insígnias reais os combatentes mais afastados do centro debandam, o pânico alastra-se entre os castelhanos e todos os combatentes de D. Juan precipitam-se na fuga, ficara ali decidido o desfecho da batalha real de Aljubarrota e em grande parte os destinos do Reino de Portugal.

Juan, apesar de muito debilitado, é posto rapidamente num cavalo e foge tão rápido quanto pode do campo onde jaziam mortos e derrotados muitos dos seus. Enquanto isso D. Nuno é forçado a acorrer à carriagem portuguesa na retaguarda que havia sido atacada por alguns ginetes castelhanos que são postos em debandada. Derrotado o inimigo muitos portugueses dedicam-se à sua perseguição, capturando algumas figuras de relevo para resgate, chegando mesmo alguns a saquear a carriagem castelhana; contudo são ordenados a voltar pois o perigo da hoste inimiga- que na realidade ainda não tinha tido tempo de se colocar totalmente em formação de batalha, mesmo acabado o combate ainda não tinham chegado todos os contingentes castelhanos ao local- estava ainda muito presente e uma reação castelhana era possível. Tal não chegou a acontecer e a alvorada do dia seguinte mostrou a terra livre do invasor, a vitória estava consumada.

Derrotado D. Juan os portugueses podiam respirar de alívio, contra todas as probabilidades, haviam ganho o enfrentamento decisivo, assegurando a sobrevivência da sua causa e impedido o inimigo de conquistar Lisboa, e por isso, D. João podia agora sentar-se muito mais confortavelmente no seu trono. Do outro lado da fronteira D. Juan e os castelhanos foram profundamente marcados por este evento traumatizante, pelo qual se decretou um luto nacional que durou mais de dois anos, não só haviam sofrido imensas baixas nas campanhas contra Portugal como haviam sido humilhados por uma hoste muito mais pequena,- o que era um grande revés para homens do séc. XIV que viam também nas batalhas campais a manifestação da vontade divina, e neste caso, não podia ser mais clara- D. Juan fora também obrigado a gastar grandes somas de dinheiro das quais não recebera nenhum tipo de retorno, cabia-lhe agora aceitar a derrota e ter de passar a uma postura mais defensiva, agora eram os portugueses que atacavam. Após a vitória os portugueses trataram de submeter muitas praças que insistiam em alinhar com D. Juan e de seguida invadiram o território castelhano liderados pelo Condestável, que agia de modo independente, acabando por conseguir uma vitória na Batalha de Valverde- na qual o mestre de Santiago foi morto levando à debandada da sua hoste- sendo seguido por outros capitães portugueses, como Antão Vasques, que também lançam expedições de pilhagem ao território vizinho. Nos próximos anos D. João tomaria controlo sobre o seu reino e selaria uma aliança com Inglaterra- que passaria a contar definitivamente com Portugal como aliado para contrabalançar a força do eixo franco-castelhano- e juntamente com um exército inglês invadiu Castela no ano de 1387. Daí em diante a independência de Portugal ficou assegurada, mas só muitos anos depois se assinaria a paz entre Portugal e Castela.

 

Notas

[1] João Gouveia Monteiro, Nova História Militar de Portugal, p. 273

[2] Maria Helena da Cruz Coelho, D. João I, p. 81

[3] Miguel Gomes Martins, De Ourique a Aljubarrota, p.367

[4] João Gouveia Monteiro, Nova História Militar de Portugal, p.234

[5] João Gouveia Monteiro, Nova História Militar de Portugal, p.236

[6] João Gouveia Monteiro, Nova História Militar de Portugal, p.239

[7] Idem

[8] Miguel Gomes Martins, De Ourique a Aljubarrota, p.366

[9] João Gouveia Monteiro, Nuno Álvares Pereira, p.113

[10] Miguel Gomes Martins, De Ourique a Aljubarrota, p.376

[11] Miguel Gomes Martins, De Ourique a Aljubarrota, p.377

 

Bibliografia

Coelho, Maria Helena da Cruz

2005- D. João I, , Lisboa, Círculo de Leitores.

Martins, Miguel Gomes

2011- De Ourique a Aljubarrota: A Guerra na Idade Média, Lisboa, A Esfera dos Livros.

Monteiro, João Gouveia

2003- Nova História Militar de Portugal, dir. de Manuel Themudo Barata e Nuno Severiano Teixeira, Vol.1, coord. De José Mattoso, Lisboa, A Esfera dos Livros.

2017a- História Militar de Portugal, coord. Nuno Severiano Teixeira, Lisboa, A Esfera dos Livros.

2017b- Nuno Álvares Pereira: Guerreiro, Senhor Feudal, Santo – Os três rostos do condestável, Manuscrito Editores.

Sousa, Armindo de

1993- História de Portugal, Vol.2- A Monarquia Feudal (1096-1480), Lisboa, Círculo de Leitores.

 

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