Por Rafael Pinto Borges
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Entre conhecedores e curiosos do império asiático de Portugal, a relação entre Lisboa e o Irão, assim como a política iraniana gizada pelos nossos reis e vice-reis, são – o que só pode surpreender-nos – objecto de muito menor interesse que a presença lusa na Índia, no Ceilão, na Malaia ou no Japão. Trata-se de falha incompreensível, porquanto a relação entre portugueses e persas é exemplo eloquente de uma colaboração marcada pelo respeito mútuo, a cedência inteligente e a consideração pelos interesses estratégicos dos dois Estados.

No olho do furacão da relação luso-iraniana esteve durante cem anos – isto é, o período compreendido entre a chegada dos portugueses ao Golfo Pérsico e a sua expulsão por iranianos e ingleses – Ormuz. Mais relevante que o facto frio da presença portuguesa na cidade, contudo, importa entender o que foi que atraiu à costa iraniana o agudo sentido estratégico de Afonso de Albuquerque. A Ormuz deste tempo era, muito ao contrário da actual, importantíssimo centro económico. Como que uma Cartago do Golfo, a Ormuz anterior aos portugueses comandava forte marinha, albergava homens de fortuna e era influente potência comercial. Desta cidade, grande de 60 000 ou 70 000 habitantes num tempo em que Londres e Lisboa não passavam os 100 000, se governava o incessante tráfico mercantil que ligava a Índia e restante Ásia aos portos do Levante e, através deles, aos de Veneza e Génova. Às suas docas chegava, e saía para a mesa dos reis da Europa, valiosa especiaria indiana; dos seus portos, de volta à Índia, cavalos persas e infindáveis outros bens oriundos daquele país.

Ormuz não era, todavia, realmente persa. Pelo menos, não o terá sido até à conquista da cidade pelos exércitos do Irão, apoiados e transportados para a ilha por naus da Companhia Inglesa das Índias Orientais. Os seus soberanos não eram iranianos, mas árabes; e a fé destes não era, como era agora a dos seus pares do continente, xiíta, mas sunita. Essa curiosa especificidade faz prever a grande diversidade humana existente em Ormuz. Vimos que era cidade imensa, pouco menor que Lisboa, Londres ou Paris, mas a multidão que a habitava não era essencialmente – nem o seria, talvez, maioritariamente – iraniana. Ali, persas xiítas e sunitas viviam com árabes dos dois grandes braços do Islão, arménios cristãos miafisitas, judeus e hindus. Uma anedota do padre jesuíta Gaspar Barzeu, missionário holandês ao serviço de Portugal, oferece boa imagem do que seria a vida dentro dos muros de Ormuz: “aqui, Deus é celebrado quatro vezes por semana: os hindus à segunda-feira, os mouros à sexta, os judeus aos Sábado e os cristãos ao Domingo”

Instalando-se na cidade em 1507, e depois definitivamente em 1515, os portugueses não não lhe impuseram grande alteração. Mantiveram, como fizeram em numerosos outros locais da Ásia, a monarquia local – como vimos, árabe e sunita – que passou a vassala do Rei de Portugal e a pagar-lhe tributo. O poder passará, com Portugal, a residir na Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, mandada construir por Albuquerque como marco da hegemonia lusa sobre o Golfo. À semelhança dos emires, que os portugueses trataram com abertura de mente e que até souberam proteger, as várias confissões locais puderam manter-se, oferecendo-se aos muçulmanos nativos tratamento semelhante ao dispensado pela Coroa aos de Safim, em Marrocos.

Ormuz seria a porta marítima do Irão até ao fim da presença portuguesa. Em 1622, obrigando uma força anglo-iraniana à capitulação de Ormuz, a cidade rápido perdeu a importância de outrora. Temeroso da elite sunita de Ormuz, Abas fundou um novo grande porto comercial, Bandar Abbas, que continua hoje um dos mais relevantes do país. Já Ormuz, abandonada a sua função primordial de grande porto persa, perdeu rapidamente importância. Hoje, a ilha não alberga população significativa, embora sobreviva vasta prova patrimonial da presença portuguesa.

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