Por Nova Portugalidade
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O seu nome era Maria Adelaide de Bragança van Uden. Foi uma lutadora até ao seu último suspiro.

Dona Maria Adelaide nasceu em Saint-Jean-de-Luz, França, em 31 de janeiro de 1912. Seu pai era o príncipe português Dom Miguel de Bragança , filho do exilado rei português Dom Miguel I e sua mãe, princesa alemã Maria Theresa de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg.

Dona Maria Adelaide é a oitava filha do segundo casamento de Dom Miguel II. Dona Maria Adelaide era cúmplice das brincadeiras do irmão Duarte Nuno, cinco anos mais novo, que se tornou Herdeiro da Coroa Portuguesa após a morte do pai, em 1927. Nessa altura, é já ponto assente que a sucessão do trono português passaria para os descendentes do Rei Dom Miguel I.

Em 1912, Dom Manuel II, o último Rei de Portugal, e Dom Miguel II, Pai de Dom Duarte Nuno e Dona Adelaide, acordaram em Dover, Inglaterra, que caso Dom Manuel II não tivesse filhos, a sucessão passaria para os descendentes do Rei Dom Miguel I (embora não existam grande provas documentais sobre o assunto). Foi o que aconteceu, mas Dom Duarte Nuno só foi autorizado pelo regime de Salazar a viver em Portugal em 1951. Dona Adelaide é tia direita de Dom Duarte Pio, filho de Dom Duarte Nuno e actual Herdeiro ao Trono Português, direito esse que entretanto foi abolido na revolução republicana de 1910.

Maria Adelaide foi a última neta sobrevivente de um rei português, nomeadamente e conforme já foi referido o Rei Dom Miguel I (1802-1866) que foi Rei de Portugal entre 1828 e 1834, até que foi para o exílio na Alemanha, depois das Guerras Liberais que assolaram Portugal durante o Século XIX.

O único filho (masculino) do rei Miguel I era o príncipe Dom Miguel, pai de Maria Adelaide. Dom Miguel tornou-se tenente-general do exército austríaco. O imperador Franz Joseph concedeu ao príncipe o privilégio de extraterritorialidade que lhe permitiu permanecer português. Na verdade, Miguel desfrutou de uma relação amigável e próxima com a família imperial austríaca. Por exemplo, a sua irmã Maria Teresa casou-se com o irmão do Imperador.

Em 1914, Dona Maria Adelaide enfrentou, tal como a restante europa, a I Guerra Mundial. A família passou por duros momentos, como a fome e o frio e tiveram que mudar de residência algumas vezes.

Em 1938, Dona Maria Adelaide começou a trabalhar como assistente social, isto com 26 anos de idade. A 12 de março daquele ano, os nazis cruzaram a fronteira austríaca. Dona Maria Adelaide foi instruída a deixar a sua escola devido à pouca simpatia pública que demonstrava em relação aos nazis.

Durante a Segunda Guerra Mundial foi condenada à morte duas vezes.

A primeira condenação deveu-se a quando chefiava uma rede que tinha por missão fazer fugir pessoas procuradas, perseguidas ou condenadas pelos Nazis. Desde paraquedistas aliados, espiões, judeus e outros. Foi apanhada pelas SS e condenada à morte. O governo de Salazar ao saber da notícia interveio imediatamente, afirmando que era a princesa era património português e deveria ser libertada. Após alguma luta diplomática, conseguiu salvá-la.

A segunda condenação será ainda mais “heroica”. Novamente agente da resistência, tem por nome de código “Mafalda”, pertencia a um grupo de resistência “05” e fazia a ligação entre os Ingleses e o Conde Claus von Stauffenberg, líder do atentado falhado contra Hitler, a chamada operação Valquíria. É apanhada, condenada à morte pela segunda vez, mas desta feita é salva pelos soviéticos, após a vitória destes em Viena. Chegou a estar cerca de um mês em cativeiro, na mão dos nazis, onde passou fome. Quando Viena caiu nas mãos dos comunistas e os russos apanharam Dona Adelaide, entre os prisioneiros, não existiam documentos e os russos não sabiam quem eram os ‘bons’ e os ‘maus’. A princesa era católica e não comunista por isso o destino provável seria a continuação da tortura, desta vez na Sibéria. Mas um feliz acaso ocorreu, a ficha de Dona Maria Adelaide apareceu no chão com uma fotografia de um jornal onde estava escrito que tinha sido presa por apoiar um suposto comunista. E assim se livrou da deportação para a Sibéria, destino trágico de vários dos seus companheiros.

Dona Maria Adelaide trabalhou como enfermeira em Viena após o fim da II Guerra Mundial. Conheceu o estudante de medicina holandês Nicolaas van Uden, com quem casou em 1945 e de quem teve seis filhos.

Voltou a Portugal em 1949 e por cá ficou. Faleceu em 2012. Uma das suas últimas frases públicas foi “Sei que a minha vida foi diferente do que poderia ter sido porque estive disposta a morrer por uma causa. Sei o que isso quer dizer. Sei que não há mal que resista a um grupo de pessoas com ideias”.

 

Cristiano Santos

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