Por Rafael Pinto Borges
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Senhora von der Leyen,
Candidata à Presidência da Comissão Europeia

Lemo-la dizendo que «o seu objectivo é fazer os Estados Unidos da Europa, modelados em Estados federais como a Suíça, a Alemanha ou os Estados Unidos”. Não podemos aceitar. Explicamos: não nos opomos «Estados Unidos da Alemanha» – na essência, o projecto de submissão da Europa à Alemanha que foi o de Naumann, de Bethmann Hollweg, de Guilherme II e, depois, de Hitler e Goebbels – por sermos, como agora se diz, «anti-europeus». Portugal nasceu nesta extremidade ocidental da Eurásia, foi feito reino por um neto dos reis Capetos de França e deve ao brilho da civilização europeia muito do que há de mais precioso na sua própria civilização. Com efeito, a Portugalidade é, em larga parte, filha de um encontro entre a Europa e a África, a Ásia e a América. A Portugalidade é também continuação – forma excêntrica, adaptada, modelada pelas circunstâncias da História e da geografia, única, enriquecida pelo contributo das outras civilizações com que se foi deparando – da civilização europeia.

Embora recusemos ser «apenas» europeus, pois os portugueses já não o são (se alguma vez o foram) desde 1415 e da chegada ao continente africano, sentimo-nos parte, também, da família europeia. Não queremos a Europa empobrecida ou enfraquecida, mas pujante e dinâmica. Ao contrário de si, consideramos que a Europa é tanto mais forte quanto mais quiser projectar sobre outras áreas do mundo a sua influência e a suas ideias; ao contrário de si, cremos que as milenárias nações da Europa não são factor de divisão ou debilidade, mas de magnífica riqueza cultural e diversidade de soluções, assim como, certamente, importante razão do sucesso da civilização europeia. Foi justamente a diversidade europeia que impossibilitou o congelamento técnico e científico por que passaram outras civilizações brilhantes – veja-se a China Qing – a quem o excessivo ensimesmamento fez decair. A Europa actual, na sua constante busca de unidade submissa, de abdicação pelos Estados dos seus interesses nacionais e de corte com o mundo exterior, repete justamente o modelo de um império oriental receoso do mundo e fechado sobre si mesmo. O resultado é que, em momento de florescimento geral do modelo nacional – veja-se a China, a Índia, a Rússia, o Japão, potências já poderosíssimas ou em rápida ascensão – a mera existência de uma União Europeia, como ela existe hoje, continua a ser impedimento a que a França reitere a sua influência política sobre a Francofonia, onde é substituída pela China; a que a Espanha o faça no mundo hispânico, perdendo-o para os EUA; ou que Portugal reconstrua laços com grandes economias como Angola ou Moçambique, entregando ambas a capitais chineses. A Europa fechada da UE é uma Europa que, pela primeira vez desde Vasco da Gama, se permitiu circunscrever ao próprio continente europeu. Longe de fazer-nos mais fortes, a Europa-amálgama que quer Vossa Excelência – que foi também a que quiseram, como se dizia, Hitler, Goebbels e todos os capitães da felizmente derrotada hiena nazi – é uma Europa cuja voz mundial cada vez menos conta, que decai mais a cada ano e que abdicou da posição, sua por mais de quinhentos anos, de cabeça do mundo. A União Europeia, pois, não é a Europa; é a anti-Europa.

O estrondoso malogro da abolição das nações europeias – feita sem o voto dos povos, sem escutar as nações, como imposição áspera de elites arrogantes e por ninguém eleitas – acabará talvez, um dia, por matar a confiança dos europeus uns nos outros. Essa seria outra consequência desastrosa para uma ilusão que já fez suficiente dano. A alternativa à Europa da submissão, da castração dos poderes dos Estados por elites distantes, da diluição violenta das culturas europeias pelo credo multicultural e do ressurgimento dos ódios perigosos que a falência económica da União tem excitado entre povos europeus, por um lado, e entre europeus e povos exteriores à Europa, por outro, é uma Europa nova, uma Europa refundada. Que Europa é essa? Uma Europa, talvez, inspirada na que um dia propôs o General de Gaulle, e não o super-estado que de Bruxelas parece hoje desenhar-se. Uma Europa de Estados nacionais independentes e aliados, governados pela sua lei e regidos pelo interesse autêntico, democraticamente definido, dos seus povos. Uma Europa de nações realmente soberanas, livres para perseguirem dentro e fora das suas fronteiras os seus objectivos nacionais. Uma Europa unida, ao mesmo tempo, por instituições de diálogo como o Conselho da Europa, onde a paz e a amizade seja garantida sem prejuízo da liberdade e soberania das nações, e próspera através de um espaço de livre comércio como é a EFTA, de que Portugal foi outrora membro.

Portugal e a Europa não querem ser federados. Exigem liberdade para poderem relançar-se como agentes da História, escapar ao abismo para que hoje parecem encaminhados e assegurar-se de que no futuro a Europa continuará a fazer-se de pátrias livres, diversas, democráticas e munidas dos meios soberanos para o serviço dos seus povos e dos seus interesses.

Pela Nova Portugalidade,
Rafael Pinto Borges, Presidente da Junta Directiva

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