Por Rafael Pinto Borges
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2020 não é apenas um novo ano. É a abertura de uma nova década, a terceira deste milénio. O aceleramento do processo histórico significa que as eras são hoje mais breves que em qualquer outro tempo da existência humana. O século XX viu o fim do período europeu da História do mundo, tempo sintomaticamente aberto, como percebeu Halford Mackinder, pelos portugueses e por Vasco da Gama há 522 anos. A Europa, ainda há tão pouco tempo senhora do mundo, retraiu-se, perdeu influência, assistiu à dissipação da sua capacidade de acção. A economia indiana passará em breve a alemã. A chinesa, dependendo do indicador escolhido, passará brevemente, ou passou já por larga margem, a dos Estados Unidos. Com a democratização económica do mundo, também o poder se esvai daqueles que há muito o detêm e corre para novos pólos. Lemos que em 2019 a China lançou ao mar 150 000 toneladas em novas embarcações militares – quase metade da Marinha Real britânica. Tudo isto ilustra algo que para todos deve ser evidente: o mundo mudou, e mudou radicalmente. A nova era histórica não será nem de confortos, nem de certezas, mas de concorrência aberta e de surpresas constantes. Preservará a sua liberdade, a sua independência e mesmo a sua existência quem fizer por isso.

Há dias, numa entrevista concedida a um jornal português, o investigador e historiador israelita Yuval Noah Harari dirigia-nos a pergunta que nós mesmos devemos colocar-nos a cada dia: daqui a vinte anos, será Portugal um Estado independente ou uma colónia? Rendidas todas as ferramentas práticas da independência nacional, da moeda à fronteira, ao orçamento, à produção de lei e ao controlo de sectores estratégicos da economia por capital nacional, essa é a questão essencial. Num tempo em que pressões de vária ordem – políticas, tecnológicas, de crescente tensão e concorrência por recursos e mercados – se conjugam para obrigar à criação de grandes blocos de Estados, o problema que somos obrigados a resolver é: podemos continuar a existir? Alguns crêem que não, e, através da União Europeia ou de um Estado “ibérico” a constituir, parecem apostados na dissolução do Estado português. Mas nisso não pode a Nova Portugalidade acompanhá-los. Por difícil que possa ser a tarefa de preservar Portugal como Estado, a independência permanece como a condição sine qua non para a sobrevivência do povo português. Sem ela, os nossos interesses mais sagrados e mais indiscutíveis serão colocados de parte por quem detiver o poder de facto: na Europa, o eixo franco-alemão; na Ibéria, a Espanha. Com efeito, passadas décadas sobre a entrada numa União Europeia que lhe prometeu a prosperidade e o deixou sem indústria, reduzido ao turismo e à restauração, obrigado à exportação da sua juventude e dos seus talentos, sem voz e mais pobre que a Chéquia, a Hungria ou a Polónia, poderão as vantagens da liberdade e da soberania continuar a escapar ao português comum? Se sim, ele não tem prestado atenção. Se não tem prestado atenção, é bom que presta agora – o tempo está a passar, e Portugal, que está a caminho de converter-se no mais pobre Estado da União Europeia, está a perder a corrida da História.

No almoço de Natal deste ano, ouvi ambos os meus avós dizer que Portugal não durará mais vinte anos. Para quem sabe que somos Estado quase milenar, essas são palavras brutais. De facto, assim pode ser – as estimativas actuais de que a população nacional cairá para seis milhões até ao final do século, a realidade do endividamento asfixiante do país, o apossamento da economia por interesses estrangeiros e a verdade trágica de que o Estado português não parece servir hoje para mais que a extracção de impostos não permitem o optimismo. Mas, povo improvável que somos, temos o direito e o dever de acreditar que não tem de ser assim. A Nova Portugalidade tem soluções. Para salvar-nos da dependência perante o centro europeu e da diluição das nossas liberdades nesse monstro burocrático e sem futuro que é a União Europeia, a Portugalidade e, nela, o imenso espaço geográfico, político e económico de trezentos milhões de homens em quatro continentes distintos. Separado e divorciado de si mesmo, o mundo português é fraco e sucumbirá. Junto, organizado e reunido, contudo, ele pode verdadeiramente ser uma potência do amanhã e conquistar um lugar à mesa do futuro. No mundo que vemos desenhar-se, como dizia Harari, Portugal poderá ser uma colónia de outros. Mas poderá também, enquanto Portugalidade e cabeça simbólica de uma civilização de trezentos milhões de homens, estar um dia entre as potências – os EUA, a Rússia, a China, a Índia, o Japão, talvez a Comunidade Britânica e uma França que regresse ao continente africano – que entre si decidirão o destino da Humanidade. Trabalhar incansavelmente por isso é a missão a que os portugueses – portugueses de Portugal, da diáspora e do mundo português, sejam brasileiros ou angolanos, timorenses ou goeses – estão obrigados, pois só assim poderemos ter um futuro de grandeza, de liberdade, de prosperidade e de dignidade. Quanto mais cedo acordarmos para ela, maior será a probabilidade de sucesso.

 

Rafael Pinto Borges

Presidente da Junta Directiva da Nova Portugalidade

2 de Janeiro de 2020

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