Por Hugo Dantas
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Ao tempo em que o vice-rei Francisco de Almeida destroçava a esquadra dos sultões mamelucos ao largo de Diu, manifestando aos actores do Índico toda a potência da artilharia portuguesa, uma segunda frente de guerra naval confrontava os egípcios.

O lago mediterrânico, outrora mar privativo do Romano, fora desde os primórdios da expansão muçulmana, um tabuleiro de disputa entre a Cristandade e o Islão. A armada do califa Muawiya defrontou as experimentadas quadras bizantinas e os raides sobre o Chipre e a ocupação das ilhas de Rodes e de Creta não se fizeram esperar. A Sícila sofreu o desembarque e a conquista dos maometanos e o estabelecimento do emirato até à libertação operada pelos normandos. Na Itália continental, o estandarte do Crescente foi hasteado em praças-fortes e o inimigo vindo do Levante compeliu o Papa a pagar tributo.

Por ocasião das diversas Cruzadas várias ordens de armas cristãs se haviam formado e assentado quartel nas ilhas mediterrânicas (Malta, Rodes e Chipre, e outras), encontrando bases adequadas para exercitar a defesa da Europa da ofensiva marítima islâmica. Foi uma destas ordens, a dos cavaleiros hospitalários da Ordem de Rodes, sediada naquela ilha, que sob o comando de um português desferiu ao Império Mameluco, na frente do Mediterrâneo, uma pesada derrota contemporânea do desastre de Diu.

André do Amaral, cavaleiro-frade, chanceler-mor da Ordem dos Cavaleiros de São João de Jerusalém, ou de Rodes, e conselheiro do rei Dom Manuel, chefiou as operações. No dia 23 de Agosto de 1510, os navios cristãos encurralaram um comboio de embarcações mamelucas do Mediterrâneo no golfo de Âyâs, nas praias do sul da Anatólia. Surpreendendo a frota em preparações para um carregamento vital para as forças nos mares da Índia, afundaram-na. Os armazéns do porto foram pilhados e incendiados. O triunfo, pouco recordado, jacente à sombra das glórias do Oriente, teve grande alcance estratégico e converteu em definitivo o retrocesso egípcio no Índico.

O historiador Jean Aubin comenta que «a destruição da frota egípcia no golfo de Âyâs, em Agosto de 1510, foi um acontecimento tão capital para o estabelecimento da Índia portuguesa como o foi em Fevereiro de 1509 a destruição da esquadra mameluca ao largo de Diu. Não somente retardou por muitos anos a possibilidade de lançar às águas uma nova frota no Mar Vermelho, mas colocou o regime mameluco na completa dependência da assistência técnica otomana».

Confirmou-se, com a vitória no Mediterrâneo, o resultado de Diu, aniquilando definitivamente o potentado mameluco. Num movimento de tenaz, os portugueses estrangulavam o sultanato egípcio; com Francisco de Almeida, em Diu, confinaram-no pelo Oriente; com André do Amaral, em Âyâs, barraram-lhe a saída para o Ocidente. Restava ao Otomano colher os despojos.

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