Por Rafael Pinto Borges
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A ocupação napoleónica de Malta, e a resistência da população local ao invasor, foram momentos marcantes da História da estratégica ilha mediterrânica. Os franceses tinham chegado em 1798, quando Napoleão, que cruzava o Mediterrâneo a caminho do Egipto, desembarcou no antigo bastião dos cavaleiros de São João. Malta, até ali inexpugnável, caiu como maçã madura, abolindo Napoleão a Ordem de São João, extinguindo a nobreza e anexando o pequeno país ao território da república francesa. Rapidamente concluída a campanha de subjugação do povo maltês, embarcou depois Napoleão para esse Egipto que tantas felicidades lhe traria.

A resistência aos franceses iniciou-se imediatamente após a partida de Napoleão. Instigados pelo clero católico contra a república ateia que Napoleão lhes trazia, os malteses obrigaram a guarnição francesa, grande de uns cinco mil homens, a refugiar-se na grande fortaleza de Valeta. A sua situação inicial era, contudo, desesperada. Sem armamento moderno e impossibilitados pela geografia do recebimento de reforços, alimentos e armas, os malteses achavam-se, contudo, perante uma luta desigual.

Seria a intervenção portuguesa a transformar o equilíbrio de forças. Enquanto a armada de Napoleão era afundada pela do inglês Nelson na baía de Aboukir, em pleno delta do Nilo, colocava-se a portuguesa a caminho da Malta sublevada. Portugal enviara para o Mediterrâneo uma poderosa força naval constituída por sete navios de linha e duas fragatas. Essa esquadra era comandada pelo Marquês de Nisa, Dom Domingos Xavier de Lima, e tinha por objectivo a intercepção de navios, comerciais ou militares, de pavilhão gaulês. A rebelião dos malteses, contudo, foi correctamente interpretado como oportunidade preciosa para que se roubasse à França um importantíssimo ponto de controlo do Mediterrâneo. Coube, pois, à armada portuguesa a distinta honra de ser a primeira a apoiar a insurreição.

Os portugueses chegaram à costa de Malta a 19 de Setembro de 1798. Dirigiram-se ao porto de Valeta, onde os franceses resistiam, então sem grande dificuldade, ao cerco que lhes imposto por uma multidão maltese sem meios adequados a um assédio competente. Os portugueses ofereceram às milícias maltesas coisa de quinhentos mosquetes, assim como o apoio valioso da sua artilharia e um destacamento de quatrocentos homens que desembarcaram na ilha para auxiliar os locais. Em Mdina, hastearam-se as bandeiras dos Cavaleiros de Malta, do Rei de Nápoles seu suserano e de Portugal, libertador do país. Os ingleses, aliados de Portugal, chegaram somente semanas depois. Lastimavelmente, todavia, o contributo português que historiadores como Henry Frendo estimam como decisivo para que a sorte das armas acabasse por sorrir ao povo de Malta foi apagado, e quase totalmente esquecido. Trata-se de atroz injustiça que a Inglaterra muito fez para incentivar e que Portugal em pouco tentou contrariar. 

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