Por Nova Portugalidade
Posted: Updated:
0 Comments

Na história do Al-Andalus, iniciada com a chegada de Tariq à Península Ibérica, em 711, e terminada com a queda de Granada, em 1492 – mundo a que oportunamente dedicaremos alguns textos neste portal – a rica diversidade étnica, cultural e religiosa, social e política exige-nos que recusemos reduzir esses sete séculos a um longo choque entre seguidores do Corão e da Bíblia, “cristãos” e “mouros” ou à luta sem quartel entre o Ocidente e o Oriente. O esquematismo oferecido por tal abordagem não só falseia, como impede a compreensão da génese e maturação da medievalidade peninsular, da singularidade da mais ocidental região do Velho Continente, como das diferenças assinaláveis que nos separam da Europa transpirenaica.

Puzzle de organizações sociais distintas, coexistentes e em interacção dinâmica com a história política do conjunto peninsular, a “Espanha Árabe” incluía populações árabes, berberes, hispano-godas, sudanesas, judeus, cristãos convertidos à fé islâmica, cristãos arabizados e muçulmanos convertidos ao cristianismo, cada qual detentor de um estatuto jurídico diferenciado.

Nessa manta multicolor merece-nos destaque um grupo social especializado nas tarefas palacianas e na arte da guerra: os Saqaliba, ou escravos eslavos. Os primeiros indícios da sua integração no Andalus datam de finais do século VIII, por ocasião do estabelecimento da dinastia Omíada. Capturados no Leste europeu e trazidos para a península por comerciantes judeus, os escravos eslavos eram oriundos da actual Polónia, mas também da Bulgária e margens do Mar Negro. Utlizados como serviçais no palácio – nas cozinhas como nas cavalariças – alguns foram emasculados e destinados a guardas do harém; outros ainda passaram a constituir a espinha dorsal da guarda do emir.

Por ocasião da fundação do califado de Córdova por Abderramão III, em 929, e posto que ao califa importava afastar da esfera do poder a influente aristocracia árabe que lhe poderia disputar o poder, os Saqaliba passaram a deter um importante poder político e influência incontestada na vida palatina. Durante o século X e até à dissolução do califado (1031), foram procuradores, inspectores e delegados do Califa, tesoureiros, bibliotecários, escrivães, espiões, informadores e polícias. Tal proximidade do poder facultou-lhes avultadas rendas e uma extensa rede clientelar que se constituiu em verdadeiro Estado dentro do Estado.

Já totalmente islamizados e arabizados por ocasião da dissolução do califado, puderam perfilar-se como enérgicos líderes regionais. Das vinte e cinco Taifas resultantes do desmantelamento do califado, seis destes pequenos reinos muçulmanos couberam a famílias eslavas: Tortosa, Valência, Denia, Múrcia e Almeria – na costa mediterrânica – e o Reino de Badajoz, que se estendia entre o Douro e a serra algarvia. Numerosos e coesos – só em Córdova seriam cerca de 12.000 por volta do ano 1000 – estes muçulmanos eslavos mantiveram influência regional impressionante até serem destruídos pela invasão Almorávida em finais do século XI.

Quando circulamos pelo Alentejo, não raro deparamos com núcleos populacionais em que predominam características estranhas às populações trigueiras e de olhos escuros, predominantes no Mediterrâneo. Essas populações louras ou de cabelo castanho-arruivado são os descendentes dos Saqaliba.

Miguel Castelo-Branco

Related Posts

António de Oliva e Sousa Sequeira, nascido em 1791 em Casfreires (Viseu), foi Marechal de Campo,...

Magalhães – um dos insignes navegadores de que há memória – continua a estar no centro da polémica. É...

Senhora von der Leyen, Candidata à Presidência da Comissão Europeia Lemo-la dizendo que «o seu...

Leave a Reply