Por Rafael Pinto Borges
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Enquanto portugueses e castelhanos revelavam a custo e por mar os segredos da geografia terrestre, os russos mapeavam a Eurásia pela mão de cossacos e sobre o dorso de cavalos. Os dois empreendimentos não foram rigorosamente paralelos na cronologia: os portugueses lançaram-se a ele primeiro, abraçaram missão mais custosa e levaram, em comparação, mais tempo a atingir a extremidade oriental da Ásia. Mas não deixa de ser fascinante a constatação de que, mais o mais ou menos enquanto o cossaco russo procurava o caminho para o Pacífico através das estepes nevadas da Eurásia, o português vislumbrava, pela primeira vez na História europeia, a costa oriental da Sibéria. E foi ele, o navegador saído do Tejo, quem chegou primeiro ao que é hoje a extremidade oriental da Federação da Rússia.

Deve-se isso a uma das páginas mais notáveis, mas lamentavelmente mais desconhecidas, da História marítima de Portugal. Escreveu-a João da Gama, neto do Vasco que foi o primeiro a ligar por mar a Europa à Índia. O que levou João da Gama a aventurar-se pelo Pacífico, oceano que os tratados de Tordesilhas e Saragoça tinham reservado à navegação espanhola, é-nos desconhecido. Talvez o temor de vir a ser preso em Goa caso a ela rumasse e onde, ao que parece, tinha cometido delito grave; talvez a esperança de alcançar bom lucro no México, de onde a coroa castelhana extraía fabulosas quantidades de ouro e prata. Talvez, ainda, a motivação tenha sido mais nobre: tinham causado indignação as viagens recentemente empreendidas por navegadores castelhanos a Macau, terra portuguesa e, por isso, vedada à Espanha apesar da União Ibérica. Certo, em todo o caso, é que este Gama se fez ao mar. Estava-se em 1589 – entre o projecto de cortar o Pacífico pelo norte e o do seu avô Vasco da Gama, de atingir a Índia por mar, distavam ainda menos de cem anos.

Largando de Macau, João da Gama atingiu o Japão por volta de Outubro de 1589. A inclemência dos elementos forçou-o a aportar em Amakusa, pequena ilha ao largo de Kyushu, no sul do arquipélago nipónico. Passou a Coreia, atingiu Hokkaido, que então se conhecia como Ezo, e prosseguiu para norte. A travessia terá sido tormentosa, pois Gama passou da Ásia à América nos meses de inverno de uma região particularmente feroz. A costa que foi desbravando é a que corresponde hoje à da Rússia oriental, a norte e Vladivostoque e até à península de Kamchatka. Terá continuado para ocidente e achado as Ilhas Curilas, hoje território russo reivindicado pelo Japão. Estas ilhas remotas tiveram em Gama o seu primeiro visitante europeu. A estas ilhas, chamou o navegador Terra de João da Gama. Outra versão, porventura menos provável, apresenta como Terra de João da Gama as ilhas Aleutas, arquipélago hoje dividido entre os Estados Unidos e a Federação da Rússia e vizinho do Alasca. A cartografia portuguesa do período, contudo, parece sugerir mais vivamente a primeira hipótese, e é para essa que se inclina o autor.

É-nos desconhecido se João da Gama chegou a avistar o Alasca. Ele, por certo, não fez referência a território continental na área das Aleutas, embora seja possível que tenha confundido o actual estado americano com parte da sua “Terra de João da Gama”. Indisputável é que o navegador mapeou pelo menos parte da América do Norte, pois João Teixeira Albernaz o Velho, cartógrafo português radicado em Sevilha, completou mapas da região que diz terem incluído as descobertas de Gama.

Chegado ao México, então denominado Nova Espanha, João da Gama foi prontamente aprisionado pelas autoridades castelhanas. Sucede que, embora Portugal e Castela tivessem à data o mesmo rei, eram países diferentes; o comércio entre as possessões imperiais de ambos era proibida e ferozmente reprimida, e isso o percebeu João da Gama ao aportar na América. Os castelhanos apresaram-lhe o navio, prenderam-lhe a tripulação – que foi enviada para Macau através das Filipinas – e puseram-no a ele a caminho de Sevilha, onde seria submetido a julgamento pela Casa de la Contratación de las Indias. Seguindo para a Península, João da Gama completou – se bem que involuntariamente – uma das primeiras circum-navegações após a de Fernão de Magalhães e Elcano. E foi sua, talvez, a primeira circum-navegação da Terra feita de leste para oeste.

O intrépido explorador português parece ter escapado incólume do processo que lhe moveram na Casa da Contratação. Morreu, contudo, pouco depois, não se sabe bem se em Portugal ou em Castela. Assim, não sem deixar marca funda, deixou a vida e entrou na História um neto de Vasco da Gama.

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