Por Gonçalo Palmeira
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No 879º aniversário da Batalha de Ourique debruçamo-nos sobre este extraordinário evento da nossa história que marca profundamente o imaginário português. Começamos primeiro por traçar um quadro geral do panorama político e militar que antecede a batalha, de seguida, iremos analisamos as circunstâncias em que ocorre o confronto, a natureza das forças envolvidas e finalmente apresentamos uma descrição que procura recriar esse acontecimento tão distante sobre o qual pouco sabemos com certeza.

 

A Reconquista: a cruz e o crescente

A Batalha de Ourique insere-se num plano mais largo da realidade peninsular onde Cristandade e Islão se opunham no processo da Reconquista. Convém, talvez, fazer uma contextualização, para todos aqueles que não estão totalmente inteirados da complexa realidade da Península Ibérica na Alta Idade Média. Logo após a conquista islâmica, nos inícios do século VIII, estabeleceu-se no norte peninsular uma coligação de forças cristãs que se opuseram à ocupação do Califado, entre o século VIII e X estas forças foram tomando controlo dos territórios e comunidades da Galécia, onde a presença e o poder muçulmano não se fazia sentir pelo desinteresse que estes tinham pela região. A guerra entre os muçulmanos e os cristãos reduzia-se maioritariamente a expedições de saque de parte a parte e que eram uma fonte importante de rendimentos e riquezas, ou então,traduzia-se em campanhas de represálias levadas a acabo pelos mouros contra os cristãos.

O processo de reconquista, que terminará com a conquista de Granada no séc. XV, não foi de todo linear, a linha de fronteira entre o Islão e a Cristandade oscilou muitas vezes a favor dos mouros. Nos finais dos séculos X Al-Mansur inflige pesadas derrotas aos asturo-leoneses chegando a saquear Santiago; nos inícios do século XI com o colapso do Califado de Córdoba, e a fragmentação do al-Andalus em pequenos reinos taifas, os cristãos vão tomar a supremacia, fazendo avançar a fronteira para sul até ao Mondego. Nos finais do séc. XI dar-se-á, contudo, outra reviravolta que marcará a Hispânia, iniciando-se uma nova face que coincide com o período da formação do Condado e Reino Portucalense como unidades autónomas. Perante a impotência dos poderes islâmicos (agora desunidos) e face ao avanço dos cristãos as taifas de Badajoz e Sevilha vão pedir auxílio aos Almorávidas do norte de África. O próprio emir Yusuf ibn Tashufin desembarca à frente de um poderoso exército, cujas fileira são engrossadas pelas forças andaluzas, e inflige uma pesada derrota a Afonso VI de Leão e Castela na Batalha de Zalaca. É no seguimento desta batalha que muitos cavaleiros francos vão acorrer à península para auxiliar no esforço de guerra frente ao Islão, entre estes encontra-se D.Raimundo que casa com D.Urraca e recebe o Condado da Galiza que abarcava então o território portucalense.

Após a Batalha de Zalaca os almorávidas vão demonstrar crescente interesse pela Península Ibérica, levando a cabo várias expedições nos anos seguintes que lhes deram o domínio de várias cidades muçulmanas. As taifas de Badajoz e Sevilha, que haviam primeiramente apelado ao auxílio almorávida, veem-se então forçadas a recorrer aos cristãos do norte para não perderem a sua autonomia, chegando a taifa de Badajoz a entregar a proteção de Santarém, Lisboa e do Castelo de Sintra aos cristãos. De pouco valeu, pois em meses ambas as taifas sucumbiram ao poderio almorávida e D.Raimundo (encarregue da defesa de Lisboa e Santarém) é incapaz de suster a ofensiva muçulmana que retoma Lisboa (Santarém cairia 15 anos mais tarde em 1111). É então que Afonso VI outorga parte do então condado da Galiza a D.Henrique- um aparentado de Raimundo- o Condado Portucalense ( que abarcava também o antigo Condado de Coimbra) que se autonomiza.  D.Henrique, pai do futuro primeiro rei de Portugal, terá sido um brilhante guerreiro e líder que consegue suster as violentas ofensivas almorávidas apesar de o quadro geral ser muito negativo para os cristãos que sofrem várias derrotas pesadas e vão sendo escorraçados para Norte. Após a morte de D. Henrique D. Teresa tem de enfrentar várias ofensivas, sendo a zona de Coimbra várias vezes atormentada pelos mouros, Miranda do Corvo foi cercada e tomada em 1106 pelo próprio emir Ali ibn Yusuf (filho de Yusuf ibn Tashufin que havia morrido em 1116) que conquistou outros pontos do Mondego, tendo talvez cercado Coimbra nesse ano e no seguinte[1]; os cercos e razias que devastaram a zona de Coimbra iriam marcar a memória dos habitantes durante vários anos.

 

Portucale: o Condado que caminhava para Reino

Após a morte do conde D. Henrique, D. Teresa vai-se envolver na complexa trama política de Leão e Castela, delineando uma política de aproximação à Galiza e aos interesses galegos, ao associar-se aos irmãos Peres Trava, estes lideravam uma constelação de nobres galegos que ambicionavam autonomizar de novo o Reino da Galiza separado de Leão e Castela. Esta política marcava uma rotura com o legado político do seu marido- que conseguira autonomizar o Condado Portucalense face à Galiza- e com os interesses dos senhores eclesiásticos e ricos-homens portucalenses de Entre Douro e Minho que queriam consolidar a sua autonomia e reduzir a influência galega na região. As dissidências entre D. Teresa e os senhores portucalense iriam-se iniciar uma rebelião encabeçada pelo jovem Afonso Henriques que assumiria o governo do condado após derrotar as forças leais a sua mãe na Batalha de São Mamede, em 1128. O governo de D. Afonso Henriques antes de 1139 foi marcado pela afirmação da autonomia portucalense e pelo esforço de alargar o território do condado. Este esforço tanto se direcionou para o sul, com o combate aos mouros, como a norte, onde D. Afonso tentou por várias vezes estender o seu domínio sobre os condados de Límia e Toronho (Galiza), mas as suas tentativas acabaram malogradas por intervenção de seu primo, Afonso VII de Leão e Castela. Apesar dos desentendimentos e intrigas políticas os confrontos com Leão eram na maioria dos casos resolvidos com acordos e a luta não tão intensa como aquela que se levava a cabo contra o Islão. Essa luta não foi de todo descorada pelos conflitos com os vizinhos cristãos, em 1131 Afonso Henriques estabelecia-se mais a sul, em Coimbra, e iniciava a consolidação das defesas meridionais para fazer frente às incursões mouras que atormentavam a região do Mondego. Em 1129 ou 1130 já havia feito doações aos templários e em 1135 manda construir o castelo de Leiria, no ano seguinte o alferes-mor lidera uma expedição- que ficou conhecida como a presúria de Fernão Peres Cativo- e assegura o controlo e povoamento da zona da Ladeia de forma a dificultar a passagem de incursões inimigas, consolidando, assim, a rede defensiva de Coimbra. Em 1137, durante uma das suas tentativas de alargar os seus domínios para a Galiza, as zonas de Tomar e do Nabão sofrem violentas incursões almorávidas que obrigam o príncipe a abandonar o norte e dirigir-se à fronteira meridional. Entre 1137 e 1138 D. Afonso Henriques lideraria a última ofensiva contra os almorávidas antes de Ourique, o “Fossado da Ladeia”, que não tomou as dimensões do fossado que se avizinharia em 1139. Vemos assim que D. Afonso teve primeiramente que responder às vagas sucessivas das incursões almorávidas, consolidando a defesa na sua fronteira meridional; em 1139 estaria já pronto para liderar ele a ofensiva ao coração do território inimigo e fazer agora as forças do crescente encolher-se perante os seus estandartes.

 

 “Lendas e mitos são sobretudo feitos de verdade” (J.R.R.Tolkien)

A Batalha de Ourique ganhou ao longo dos séculos um contorno de grande relevo na história e imaginário português, atingindo proporções verdadeiramente lendárias, numa narrativa prolongada pela tradição segundo a qual D. Afonso Henriques derrotou cinco reis mouros liderados pelo rei Esmar, bem como pela belíssima lenda da aparição de Cristo a D. Afonso nas vésperas da batalha. Contudo esta visão que se tem prolongado no nosso imaginário- e que se perpetua na simbologia da bandeira nacional portuguesa- enfrenta vários problemas que levaram e levam muitos a duvidar da própria ocorrência da batalha ou a descartá-la como um pequeno enfrentamento campal ampliado por séculos de mitificação. A historiografia tem vindo, contudo, a debruçar-se sobre estes problemas, ajudando a resolver e clarificar muitos destes aspectos.

Não podemos deixar de começar por assinalar a problemática das fontes, especialmente as fontes próximas dos acontecimentos (Annales Portucalenses veteres, Annales D.Alfonsi Portugallensium regis, Vita Theotonii)- na realidade a batalha não é referida em nenhuma fonte muçulmana ou “espanhola”- que são muito sucintas e pouco detalhadas na descrição dos acontecimentos que acabam por ser descritos em maior detalhe em fontes posteriores (Crónica Geral de Espanha 1344, Crónica de Portugal de 1419) estas, por seu lado, estão recheadas de anacronismos e inconsistências que levantam várias dúvidas. Como resultado temos pouca informação escrita daquela época, por isso, a narrativa perpetuada pela tradição tem, à primeira vista, pouco sustento. Comecemos então por  analisar dois dos principais problemas que têm feito correr muita tinta e depois partiremos para uma análise mais detalhada da expedição e batalha de 1139.

Será por muitos conhecida a famosa polémica quanto à localização da batalha,- havendo quem sugerisse que se tivesse dado perto do Cartaxo, ou nas proximidades de Leiria, ou ainda, junto a Penela, tendo o exército português travado o avanço de um poderoso exército mouro que se dirigia para sul[2]– prevalece contudo a hipótese há muito atestada pela tradição que a Batalha de Ourique de facto se deu no Baixo Alentejo[3], nas imediações da vila com o mesmo nome- Ourique na Idade Média designava uma vasta porção de território despovoado no baixo Alentejo- a sul de Beja e de Castro Verde. Tal parece ser atestado pela longa tradição (que data, pelo menos, do século XIV) daquela região, na qual a população acredita ter acontecido a batalha, o que não se verifica em mais nenhum lugar. Não podemos deixar de assinalar o problema de fundo que se prende diretamente com a questão da localização da batalha: a questão da distância. Muitos se perguntaram e perguntam como foi possível ao infante fazer mais de 250 quilómetros em território inimigo? Para muitos pareceu de tal forma inverossímil que trataram de descartar a localização original como uma fabulação, contudo, tal operação não era de todo impossível ou invulgar naquela época. Não era inédito nos reinos cristãos lançarem-se fossados que se embrenhavam profundamente em território inimigo durante várias semanas; foi o caso do fossado lançado por Afonso VII contra Jaén em 1138, ou o fossado que este rei liderou contra o vale do Guadalquivir e que atingiu as imediações de grandes cidades como Córdova e Sevilha, e lembremos claro o “Fossado de Triana” liderado pelo nosso D. Sancho I, em 1178. A Batalha de Ourique resultou de mais uma destas expedições com objetivos estratégicos mais ambiciosos e que por isso requeria, para além de mais meios humanos e logísticos, uma incursão profunda e demorada em território muçulmano[4].

Outro problema levantado reside na incapacidade que os historiadores tiveram até há pouco tempo em identificar o “rei Esmar” e os “cinco reis mouros”. Mário Jorge Barroca resolveu em parte o problema- conforme reconhecem outros historiadores como José Mattoso- ao identificar o “rei Esmar” como uma deturpação de Ibn Umar, ou seja, seria Abu Muhammad Az-Zubayr ibn Umar, governador de Córdova e de Granada[5], que se tornara a figura mais influente do al-Andalus após a partida do emir para Marrocos. Quanto aos reis mouros, os “Annales D.Alfonsi” dizem-nos que o exército muçulmano seria composto por forças “do termo de Sevilha e de Badajoz e de Elvas e de Évora e de Beja e de todos os castelos até Santarém”, juntando o “rei Esmar”, teremos aqui certamente um conjunto de cinco governadores que seriam então identificados como os cinco reis mouros; mesmo não tendo estes “cinco reis” participado na batalha terão ao menos enviado os seus contingentes. Não nos esqueçamos que em 1139 o al-Andalus havia sido recentemente unificado sobre o poder de um emir, após um período de divisão em que imperavam os muluk al-tawa’if  (os reis dos pequenso reinos taifa) e que alguns anos após a batalha o Império Almorávida iria desmantelar-se, dando origem a um segundo período dos reinos taifa, é, por isso, natural que os escritores cristãos de então associassem a figura de governadores a reis.

 

O Fossado: a caminho de Ourique

No seguimento do sucesso da sua última expedição (o Fossado da Ladeia) D. Afonso Henriques prepara em 1139 um novo fossado, mas desta feita com objetivos bem mais ambiciosos e com uma dimensão superior ao anterior. Esta expedição terá atingido o alfoz de Sevilha- cidade que seria por mais de uma vez alvo de depredações cristãs naquela época – como sugere José Mattoso[6].

Em Maio- mês no qual se costumava organizar os fossados[7] -faziam-se já os preparativos para uma grande campanha militar, conforme assinala Alexandre Herculano[8], concentrando-se a hoste portucalense em Coimbra. Ao partirem as forças portucalenses terão percorrido a recém dominada região da Ladeia em direcção ao Tejo, que foi atravessado a vau nas imediações de Pai de Pele ou de Punhete a leste de Santarém de forma a evitar os postos de vigilância dos mouros de Shantarin. Transposto o Tejo avançaram em direção a sudeste atravessando o Guadiana a oeste de Badajoz e a este de Évora e daí seguiram para a região andaluza. Escusado será dizer que à medida que avançavam para sul avolumavam-se os riscos e problemas da hoste portucalense que se afastava das suas bases de apoio e ia aproximando das cidades inimigas. Tudo indica, no entanto, que não tenham conhecido resistência à medida que se embrenhavam mais para sul[9].

O avanço da hoste liderada por D. Afonso Henriques e a longa distância percorrida pelos invasores sem conhecer qualquer resistência significativa pode ser explicada: em primeiro lugar o trajeto foi cuidadosamente escolhido e longamente planeado com recurso às informações trazidas pelos batedores que terão sido enviados para reconhecimento prévio do território. O percurso descrito- e que é uma reconstrução, não vem explicito nas fontes pelos problemas já assinalados-  contorna e evita os sistemas defensivos das cidades de forma ao avanço da hoste passar despercebido às guarnições e populações locais. A hoste deve ter tentado, até quando lhe foi possível, manter a sua operação secreta de forma a ter o factor surpresa a seu favor, não só evitando as defesas das cidades como usando a escuridão noturna para encobrir o avanço do exército. Mas não terá sido apenas o secretismo que facilitou o avanço do exército portucalense, o Gharb (região ocidental do al-Andalus) estaria naquela altura mal guarnecido uma vez que Afonso VII de Leão e Castela cercava Oreja,- importante bastião muçulmano nos arredores de Toledo e que muito dano fazia a essa cidade e aos cristãos- o que levou muitos contingentes muçulmanos a deslocarem-se para essa região; os governadores de Córdova e de Sevilha tentariam ainda uma manobra de diversão para dividir as forças de Leão e Castela, atacando Toledo. D. Afonso Henriques atuava provavelmente em cooperação com o seu primo, obrigando também os mouros a dividir as suas forças para fazerem face aos estandartes dos netos de Afonso VI[10]. A conjugação destes dois fatores (secretismo e guarnições reduzidas) terão ditado o sucesso da investida portucalense até ao interior do território inimigo. Estes factos são melhor compreendidos se assinalarmos ainda o seguinte: a defesa almorávida concentrava os seus melhores contingentes nas fortalezas fronteiriças, o interior era sempre menos guarnecido e as populações e guarnições limitavam-se a recolher para o interior das muralhas perante os ataques inimigos[11]. Assim uma vez transposta a região de fronteira, evitando-se as defesas e guarnições, e perante as forças almorávidas reduzidas, a hoste pôde lançar-se em acções depredatórias pela região.

Desta forma avançou Ibn Errik (como chamavam os muçulmanos a D. Afonso Henriques) até à Andaluzia e perante a impotência das forças muçulmanas do Gharb terá assolado e saqueado as povoações menos defendidas durante um mês[12]. Os danos e pilhagens devem ter sido tais que o governador de Córdova, – e então figura mais proeminente do al-Andalus – Abu Muhammad Az-Zubayr ibn Umar terá mobilizado um poderoso exército, provavelmente recorrendo a parte das forças que cercavam Toledo e/ou recrutando entre as guarnições das praças do Gharb. Reunida a hoste Ibn Umar marcha de encontro às forças de D. Afonso Henriques “com o objetivo de lhe travar o passo e pôr fim à expedição, se necessário fosse, através de um enfrentamento campal. ”[13]

 

As forças em confronto: os números, a composição dos exércitos e o armamento

Muito provavelmente nunca nos será possível conhecer os pormenores desta operação dada a escassez de informação das fontes mais próximas dos acontecimentos, a composição numérica e a natureza das forças em campo é um destes casos. Contudo vamos procurar fazer uma aproximação com base nos poucos dados que temos e tendo em conta outras operações e aspectos melhor conhecidos deste período.

Quanto aos números da força cristãs a Crónica de Portugal de 1419  fala-nos de 800 a 1000 cavaleiros e de 8000 a 10 000 peões, esta última cifra é claramente inflacionada e muito pouco credível, pois em nada corresponde aos números habituais da altura. O mais plausível será assumir que o exército seria composto por cerca de 1000 cavaleiros, o que parece provável no contexto peninsular da altura, normalmente estas operações envolviam, na maioria das vezes, um milhar de cavaleiros e no máximo dois[14]. Seria a cavalaria que compunha a espinha dorsal da hoste pois estava muito mais apta para este tipo de operações pela sua mobilidade e pela sua maior eficácia em operações ofensivas, enquanto a peonagem se reservava mais para operações de defesa.[15]

A peonagem atingiria, no máximo, o dobro do número de cavaleiros[16]. Os fossados da altura costumavam envolver ou a mesma proporção de peões (face à cavalaria) -quando as operações eram mais reduzidas e apostavam na rapidez e surpresa do ataque- ou o dobro, sendo que as operações de maior dimensão, como é o caso desta, necessitavam de um maior apoio proporcionado pela peonagem[17]. Visto isto, podemos afirmar que possivelmente estariam presentes, no máximo, 2000 peões em Ourique como sugere Miguel Gomes Martins.

Quanto à composição da hoste, que rondaria então os 3000 homens, sabemos que esta não seria de todo homogénea, sendo composta por vários contingentes de diversas origens e de naturezas diferentes, à semelhança dos exércitos da época.

As mesnadas nobres seriam uma componente bastante significativa, os nobres terão sido chamados a prestar auxílio ao príncipe portucalense, trazendo as suas forças que, certamente, compunham uma percentagem importante da hoste cristã. Nesta parcela da hoste incluíam-se as forças dos ricos-homens (categorias mais altas da nobreza) que traziam dezenas ou até perto de uma centena de lanças de cavalaria e outros tantos peões; as forças dos infanções e da nobreza de categoria inferior que se fazia acompanhar de poucas dezenas de ginetes e peões (podendo a soma destas forças suplantar o total das forças das categorias mais elevadas da nobreza)[18]. Visto isto, não será de estranhar que estivessem presentes alguns nobres das grandes casas senhoriais de Entre Douro e Minho e, talvez, agumas forças das ordens militares, nomeadamente as da Ordem do Templo. Para além das mesnadas senhoriais a formar o grosso das forças portucalenses juntavam-se as milícias concelhias, especialmente as de Coimbra, formadas por alguma cavalaria pesada, mas sobretudo pela cavalaria ligeira- uma vez que a aquisição de equipamento era cara e poucos tinham poder de compra para adquirir o melhor equipamento defensivo- e pela peonagem.

Entre os vários contingentes havia também diferenças, como já fizemos notar, podendo um contingente ser constituído por cavalaria pesada, cavalaria ligeira e peonagem. Os combatentes de maior destaque, a “elite das elites” (como afirma Mário Jorge Barroca), seriam a guarda e séquito do príncipe e dos grandes senhores, as guardas palacianas[19]  formadas por guerreiros altamente treinados que se dedicavam inteiramente ao serviço militar e que se equipavam com o melhor armamento. A formar o núcleo duro da cavalaria pesada, a “espinha dorsal do exército”, tínhamos os séquitos dos grandes nobres, os cavaleiros e nobres inferiores seus vassalos, juntamente com os infanções que poderiam trazer também alguns cavaleiros que os serviam. Mas não eram apenas os nobres que combatiam a cavalo, a cavalaria-vilã certamente constituía uma parte significativa da hoste, sendo composta pelos homens livres capazes de adquirir o equipamento necessário para lutar a cavalo ou com armas cedidas pelo monarca.[20] Conforme as capacidades de aquisição de equipamento de cada um os cavaleiros-vilões distribuíam-se pela cavalaria pesada ou pela cavalaria ligeira. Presente em quase todos os contingentes estava a peonagem, ou seja, os combatentes que lutavam apeados.

Quanto ao equipamento dos combatentes cristãos teremos que distinguir sobretudo a cavalaria pesada, a cavalaria leve e a peonagem. A cavalaria pesada era sem dúvida o grande trunfo dos exércitos cristãos. Estes cavaleiros equipavam-se com uma jaqueta de tecido acolchoada, a gambax, em muitos casos (e se tivessem essa possibilidade) protegiam-se acrescentando lorigas ou cotas de malha formadas por elos metálicos entrelaçados ou então por escamas metálicas sobrepostas a um suporte de couro e que protegiam dorso, braços e pernas até aos joelhos; as mãos eram protegidas por luvas de couro ou proteção de malha incorporada na loriga. Para protegerem a cabeça usavam elmos cónicos e capelos de ferro- de forma hemisférica, sendo uns mais pontiagudos e outros mais redondos- forrados a coro e que muitas vezes possuíam uma proteção nasal (que podiam ser bastante largas como sugerem as representações da Ermida de San Baudelio de Casillas), poderiam ainda estar presentes (ainda que em número reduzido ) elmos complementados com uma máscara larga mas com grandes aberturas para os olhos e que aparecem em várias representações peninsulares da época (como o Beatus de Liébana[21], ou no pórtico de Santa María la Real de Sangüesa). Por baixo do capelo os combatentes tinham ainda capuzes de malha metálica, que podiam estar ou não articulados com a loriga, e, que em muitos casos cobriam a face até ao nariz. Abaixo do joelho podiam usar uma espécie de caneleiras que seriam ou não complementadas com sapatos de ferro. Além do armamento defensivo que levavam vestido os cavaleiros possuíam ainda um escudo que poderia ter várias formas, desde os finais do século XI que se vinha a adoptar os escuto comprido e pontiagudo na extremidade inferior e por vezes arredondado na parte de cima, que conferia proteção de quase todo o corpo; contudo não seria apenas este escudo- mais característico das forças cristãs da altura- que estaria presente em Ourique uma vez que a utilização de escudos redondos- e até decorados à maneira dos mouros- manteve-se durante o século XII entre as forças cristãs da Hispânia (como tão bem demonstra o Códice de Las Huelgas,de 1220[22]).Quanto ao equipamento ofensivo destaca-se o uso da lança, com um cabo de madeira- de três ou quatro metros- e ponta de ferro losangular com dois gumes. A par da lança os cavaleiros estavam munidos de uma espada de lâmina direita de dois gumes com a ponta levemente afiada- o objetivo principal seria cortar, não estocar- e um punho forrado de tecido ou couro com pomo (massa de ferro) na extremidade.

Além dos cavaleiros fortemente armados havia aqueles que não tinham essa possibilidade e formavam por isso a cavalaria ligeira. Entre estes cavaleiros o uso da loriga não seria tão comum, estes usavam essencialmente jaquetes acolchoados de tecido ou couro; alguns teriam capelos de ferro ou então de couro fervido (por serem mais acessíveis). O uso da espada seria menos recorrente (por esta ser uma peça muito cara) e muitos poderiam usar lanças mais pequenas, algumas para arremesso.

A infantaria ou peonagem equipava-se sobretudo com lanças, as espadas não seriam comuns mas usavam abundantemente cutelos e outras lâminas, bem como machados e maças-de-armas[23] (umas com cabeça de ferro ou umas mais toscas de madeira com espigões). O equipamento defensivo podia oscilar entre pouco mais que a roupa do dia a dia, à proteção de jaquetas acolchoadas para o dorso, alguns poderiam conseguir capelos de couro ou até metal e poucos uma loriga- na maioria dos casos cedida pelo senhor ou arsenais das vilas- para não falar do escudo que seria comum e acessível à maioria mesmo que fosse apenas de couro ou madeira.

Quanto à hoste muçulmana e os seus números as fontes também não adiantam números concretos, são apenas muito claras em destacar a imensidão do exército almorávida, segundo os “Annales D.Alfonsi” o exército do “rei Esmar” seria uma “infinita multidão de sarracenos de além-mar, que trouxera consigo, e daqueles que moravam do lado de cá do mar, do termo de Sevilha e de Badajoz e de Elvas e de Évora e de Beja e de todos os Castelos até Santarém ”, a “Vita Theotonii” fala-nos de uma “incontável e bárbara multidão de gente, reunida daquém e dalém-mar”; nestas e outras fontes a imensa superioridade das forças de Ibn Umar é grandemente destacada. Apesar de muitos destes relatos terem como objetivo salientar a proeza das armas portucalenses é muito provável que as forças almorávidas superassem grandemente em número a hoste cristã. Os exércitos almorávidas reuniam facilmente alguns milhares de homens, chegando mesmo às dezenas de milhar, Miguel Gomes Martins avança uma cifra que atingiria no máximo os 10 000 combatentes.

Quanto aos contingentes que compunham o exército mouro e as suas características as fontes contemporâneas mais uma vez pouco ou nada dizem, são unanimes em referir que a hoste era composta por “sarracenos” do al-Andalus e do Norte de África e avança-se ainda que seriam provenientes “do termo de Sevilha e de Badajoz e de Elvas e de Évora e de Beja e de todos os Castelos até Santarém ”. Tendo em conta esta informação e juntamente com o que sabemos sobre os exércitos almorávidas do período podemos supor que de facto o exército era composto por importantes contingentes vindos do Norte de África, constituídos por tropas berberes (muito utilizadas pelos Almorávidas que provinham precisamente do Norte de África); além dos berberes o grosso do exército seria formado por tropas do al-Andalus recrutadas por vários pontos do Gharb, poderemos ainda levantar a hipótese de haverem entre os mouros tropas de escravos africanos que os emires muito estimavam (Yusuf ibn Tashufin criara uma guarda 2000 soldados negros, e o seu filho Ali ibn Yusuf treinava escravos negros como cavaleiros) e até mercenários cristãos ao serviço dos almorávidas.[24] O exército seria na sua maioria formado por infantaria, uma grande massa de soldados apoiada por contingentes de cavalaria ,maioritariamente ligeira, mas também cavalaria pesada, compostas pelos indivíduos mais prósperos e poderosos e pelas guardas dos poderosos que eram armadas pelos arsenais das cidades[25].

Quanto ao armamento dos contingentes mouros, para espanto de muitos, seria em muitos casos bastante parecido ao equipamento cristão e em muito pouco se assemelharia às representações que estamos habituados a ver em pinturas e ilustrações atuais que têm vindo a “otomanizar” os mouros (representando-os frequentemente com armamento característico dos turco-otomanos e dos mamelucos dos séculos XV e XVI). Dentro do exército almorávida seria fácil distinguir os combatentes “d’além mar” daqueles que eram naturais do al-Andalus.

Comecemos então pelos mouros “d’aquém mar”, ou seja, os naturais da Península Ibérica que se equipavam de forma muito semelhante aos cristãos; quando tinham possibilidade usavam também eles uma gambax, uma loriga ou cota de malha que também lhes cobria o rosto à exceção dos olhos, capelos de ferro e elmos cónicos, como os cristãos, ou com uma extensão que protegia o pescoço. Não seria incomum para os indivíduos mais abastados usarem capacetes ricamente adornados com padrões e inscrições, ou, com acrescentos decorativos dourados (à semelhança do que vemos em algumas miniaturas das Cantigas de Santa Maria[26] ). Claro está que nem todos tinham acesso a toda esta panóplia de armamento defensivo e à semelhança dos cristãos podiam ficar apenas por um jaquete acolchoado de tecido e um capelo de couro ou ferro, contudo, uma vasta porção do exército estaria pobremente armada com pouco mais que as vestimentas do dia a dia, como túnicas e turbantes. Os escudos seriam também de uso generalizado, uns de madeira reforçados com ferro ou couro e outros simplesmente feitos de couro; apesar da maioria serem redondos haviam também escudos em forma de lágrima de dimensões mais reduzidas. A nível de armamento ofensivo dominava a lança para arremesso; as espadas, ao contrário do que se pensa, não seriam curvas, mas sim direitas e de dois gumes à semelhança das espadas cristãs. Apesar das semelhanças no armamento os mouros gostavam de se distinguir pela sua preocupação em decorar ricamente os seu armamento com inscrições e padrões, cobriam, também,  muitas vezes o armamento com túnicas e usavam tiras de tecido em volta dos seus elmos.

Facilmente distinguíveis dos mouros “d’aquém mar” seriam os contingentes do Norte de África, na maioria berberes armados com os grandes escudos lamt, dardos e espadas de lâminas largas mas direitas; a maioria não estaria protegido por armadura mas cobertos por grandes véus litham, que apenas deixavam os olhos à vista, ou quanto muito usavam jaquetes acolchoados[27]. Alguns teriam a sorte de usarem armadura, muito à semelhança dos seus companheiros do Andalus, cota de malha e elmo cónico que gostavam de cobrir com túnicas e turbantes.

 

A batalha[28]

Terá sido, então, nos arredores de Ourique, no Baixo Alentejo, que os dois exércitos se defrontaram no dia de Santiago, protetor dos exércitos da Reconquista. O enfrentamento deu-se apenas por vontade mutua, – sendo que as batalhas eram nesta altura raras e evitadas a todo o custo pelo risco que acarretavam- Ibn Umar saíra ao encalço de D. Afonso Henriques e dos portucalenses para os desbaratar e pôr fim às suas pilhagens, fora no Baixo Alentejo que interceptara os cristãos que já se iam deslocando de novo para norte. Afonso Henriques, que pela inferioridade numérica e por se encontrar no coração de território inimigo tinha todas as razões para se furtar ao confronto, não quer abdicar dos seus espólios de guerra e regressar de mãos vazias a Coimbra, além do mais, a retirada seria perigosa e difícil com o exército inimigo sempre no seu encalce a fustigar-lhe a retaguarda, podendo até cortar-lhe a linha de marcha e obrigá-lo a combater de qualquer das maneiras. O jovem príncipe decide então arriscar tudo e aceitar o desafio.

Os exércitos não se hão defrontado de imediato sendo o confronto adiado, uma vez que ambos os lados necessitavam de descansar e de se alimentar antes da batalha. Os arraiais terão estado montados a umas centenas de metros de distância, separados pelo terreno onde se daria o confronto. Segundo os “Annales D.Alfonsi” o acampamento estaria montado num ponto alto defendido por um fosso, provavelmente também terão sido erguidas paliçadas e outras defesas para melhor proteger o acampamento do inimigo que se encontrava ali tão perto e que potencialmente terá aplicado as mesmas medidas.

O dia 24 terá, então, sido preenchido com o levantamento das defesas e com a preparação para o combate que se avizinhava. Os combatentes terão cuidado do seu armamento, os cavaleiros tratado das suas montadas e todos tentaram descansar e alimentar-se, o que podia ser bastante difícil devido aos nervos que, naturalmente, antecedem um batalha. Inúmeras preces ter-se-ão elevado aos céus, de um lado e do outro, os soldados procuraram também cuidar da sua alma através da oração e confissão (para os cristãos).

À alvorada do dia 25 de Julho, após uma última refeição e missa campal, os soldados portucalenses acorreram ao campo dispondo-se em formação de batalha. O exército cristão dividia-se em três unidades táticas: a vanguarda composta talvez pelos 300 melhores cavaleiros, que supomos, divididos em duas ou três linhas, juntamente com algumas centenas de peões que no máximo sumariam 500 homens; a retaguarda seria idêntica em composição e dimensão à vanguarda; nos flancos estariam as alas que se prolongariam à esquerda e à direita da vanguarda, cada uma destas alas era formada por, supomos, 200 cavaleiros e algumas centenas de peões que mais uma vez atingiriam um número máximo de 500 homens, todos estes combatentes tinham a missão de impedir que as forças inimigas flanqueassem e envolvessem a hoste cristã.

Quanto ao comando a Crónica de Portugal de 1419  afirma que D. Afonso Henriques teria comandado em pessoa a vanguarda, o professor Miguel Gomes Martins chama à atenção para o facto de tal poder não passar de um artificio literário para enaltecer o fundador, e que este estaria antes na retaguarda (expondo-se a riscos menores) onde poderia comandar a hoste, por isso, cabia ao alferes-mor Garcia Mendes de Sousa liderar a vanguarda. Apesar desta hipótese ser bastante válida e verosímil fará também sentido considerar que de facto o príncipe liderou em pessoa a vanguarda e a carga portuguesa pelos seguintes motivos: Afonso Henriques era então um jovem ambicioso de 30 anos que procurava ganhar uma crescente autonomia política, desde de São Mamede reclamava a liderança da nobreza de Entre Douro e Minho; estava potencialmente perante o seu maior desafio militar até então, era altura de demonstrar a sua bravura e valor guerreiro liderando os seus homens da linha da frente como faziam outros líderes militares. Relembremos, pois, o exemplo do próprio filho de D. Afonso Henriques, D. Sancho, que em situação semelhante, no famoso fossado de Triana “agia como se tudo dependesse do seu desempenho, como se tivesse de provar toda a sua valia naquele momento face aos homens que liderava”[29]; o poder de liderar outros homens advinha das capacidades de liderança e bravura demonstrados em campo de batalha, é por isso que D. Sancho lidera em 1178 a vanguarda portuguesa, talvez à semelhança do seu pai em Ourique quando ainda era apenas um jovem princípe. Seguindo esta linha de raciocínio não nos parece descabido sugerir que Afonso Henriques tenha efetivamente liderado a vanguarda, enquanto o alferes-mor (um rico-homem mais velho e talvez mais experiente) comandava da retaguarda.

Face à hoste cristã encontrava-se o exército mouro muito mais numeroso mas sobre o qual as fontes pouco adiantam, seguindo, uma vez mais, a reconstrução do professor Miguel Gomes Martins com base nas práticas da altura, supomos que este estivesse dividido em cinco ou seis unidades táticas, sendo estas a vanguarda, um corpo central, duas alas que que defenderiam os flancos do exército, a retaguarda e talvez uma reserva.

Alinhados frente a frente os exércitos ter-se-ão encarado, esperando que o adversário desse um passo em falso, será de imaginar que na hoste muçulmana se tenha levantado o enorme clamor de grandes tambores e trombetas à medida que as bandas montadas- características dos exércitos mouros- desfilavam frente aos seus companheiros. Seria nestes momentos que se fariam as últimas bençãos, que os comandantes se dirigiam aos seus combatentes com palavras de encorajamento, relembrando a justeza da sua causa e o valor daquela guerra, que era santa. Após as ovações e preces a batalha deu início, as fontes são unânimes quanto à iniciativa ter partido dos almorávidas, estes terão muito provavelmente lançados os seus ginetes em manobras de torna fuy,– como era a prática habitual no mundo islâmico- ou seja, a cavalaria ligeira moura, armada com arcos e dardos terá cavalgado até próximo das forças cristãs assediando-as com projeteis; esta tática tinha o objetivo de desorganizar as forças cristãs e induzir em cargas desorganizadas que ameaçavam a coesão do exército. Podemos imaginar que não terão tido grande sucesso e a resposta portucalense não se fez esperar, D. Afonso Henriques lança então aquela que era a grande arma dos cristãos que imenso dano fazia aos mouros, tanto na Hispânia como na Terra Santa, a cavalaria pesada.

Ao som de cornos de guerra (muito representados em iluminuras da época) e gritos e apelos a Santiago, os cavaleiros cristãos terão carregado- tendo talvez a coluna assumido uma forma pontiaguda de frente estreita e em profundidade- ganhando velocidade à medida que avançavam, o trote passava a galope, mas os cavaleiros não podiam quebrar a formação, um bom choque inicial era decisivo numa batalha. Terá provavelmente sido o caso, os mouros não aguentaram o ímpeto da carga dos cavaleiros de Ibn Errik que “montavam à brida”, equipados de cota de malha, “presos” ao cavalo pelos estribos e selas altas, empunhando a lança a direito (lance couchée) como arma de choque.[30] Perante uma boa execução da carga a “massa de ferro” cristã rompeu as formações inimigas embrenhando-se pelas linhas almorávidas, deixando para trás de um rasto de cadáveres.

Esta carga ou vaga de cargas terá sido conseguida com grande eficácia e terá tido grande impacto na hoste inimiga, segundo os “Annales D.Alfonsi” a cavalaria terá feito recuar e dividido as forças do Islão, rasgando as linhas da vanguarda até à segunda linha do exército de Ibn Umar. Por esta altura a vanguarda portucalense perdia o ímpeto da carga inicial esbarrando-se contra as formações mais recuadas; cabia, agora, aos cristãos aproveitar ao máximo o break through e continuar a empurrar as linhas inimigas, para tal terão avançado em vagas a cavalaria ligeira- na sua maioria das forças concelhias- a peonagem e contingentes das alas e até da retaguarda. Vaga a após vaga os exércitos ter-se-ão embrenhado na carnificina habitual das batalhas, milhares de homens digladiaram-se sob o sol quente do verão alentejano. Segundo a Crónica de 1419  a batalha terminou ao meio-dia ou já à tarde (como sugerem os “Annales”), as armas cristãs saíram vitoriosas. A superioridade do armamento terá facilitado o triunfo sobre os mouros que hão debandado perante as forças de Ibn Errik, deixando muitos mortos para trás e outros ainda por cair, enquanto retiravam de forma desorganizada à frente das forças cristãs. As baixas almorávidas foram pesadas, Miguel Gomes Martins adianta que terão rondado entre os 20 e 50 por cento das forças mouras, ou seja, 2000 a 5000 homens, entre os cristãos também terá havido várias baixas especialmente na vanguarda onde caiu o alferes Diogo Gonçalves de Cete.

Parece-nos que terá sido então no campo de Ourique, após estar consomada a vitória, que os companheiros de Afonso Henriques no furor da vitória decidiram aclamá-lo rei. Sobre os gritos de entusiasmo e ovações o jovem príncipe foi elevado sobre o seu escudo passando então a ser chamado por rei.

Consomada a vitória as forças portucalenses ter-se-ão prolongado pelo campo de batalha recolhendo os espólios deixados para trás pelos seus inimigos. Desbaratada a hoste as forças cristãs puderam aproveitar para pilhar mais a região, mas as fontes sobre isso nada dizem, o vasto botim que hão conseguido e a vitória frente a Abu Muhammad Az-Zubayr ibn Umar já deveriam ser suficientes para retornar a Coimbra. A hoste terá demorado vários dias atrasada pelo espólio e pelos prisioneiros apeados que levavam para norte, sem terem, ao que tudo indica, conhecido resistência maior até chegarem a Coimbra, onde entraram vitoriosos certamente recebidos por um clima festivo. O príncipe que partira voltava agora rei, coberto de glória e riquezas.

 

Consequências

Conforme consta na tradição D. Afonso Henriques foi aclamado rei pelos seus companheiros nesta batalha e daí advém em grande parte a dimensão mítica e grandiosa que se conferiu à batalha, enaltecida como um dos principais momentos da fundação. Mais uma vez a historiografia parece assentir com a tradição, é de facto verosímil que D. Afonso tenha sido aclamado rei em Ourique, uma vez que é entre Julho de 1139 e Maio de 1140 que D. Afonso Henriques passa a ser denominado por rei. Além disso José Mattoso ao constatar a importância do pavês (escudo longo) de D. Afonso Henriques- que era guardado como uma espécie de relíquia sobre o seu túmulo e que supostamente caía da parede cada vez que morria um rei de Portugal- sugere que o príncipe tenha sido alçado sobre o seu escudo (como refere a Crónica Geral de Espanha de 1344: “os seus o alçaron por rey”), à moda germânica, como acontecia também no reino de Navarra.[31]

Na descrição anterior dos eventos mencionámos que aclamação de D. Afonso Henriques se deu no seguimento da vitória em Ourique, não podemos deixar de assinalar que tal não passa de uma suposição nossa e que na realidade a Crónica Geral de Espanha de 1344 e a Crónica de Portugal de 1419 dizem-nos que terá sido antes do confronto começar que D. Afonso foi aclamado rei. Sendo assim, porque preferimos nós considerar que a aclamação se deu depois da batalha? Por uma questão lógica, parece mais viável que a aclamação tenha sido feita como resultado da vitória do jovem príncipe que há mostrado então em campo o seu valor e capacidades militares. Como afirma José Mattoso “Ourique foi a sua primeira grande vitória contra os Mouros”[32] e talvez a maior das suas vitórias até então, se a isto juntarmos a componente fortemente guerreira dos inícios da monarquia portuguesa perceberemos que é o sucesso no campo de batalha que legítima e consolida o poder real[33], logo, terá sido perante esta vitória sem precedentes que o jovem Afonso Henriques fez valer as suas capacidades dignas de um rei. Não somos de modo algum os primeiros a seguir esta linha de pensamento, José Mattoso- apesar de na sua obra mais recente ter seguido a narrativa da Crónica Geral de Espanha de 1344 ( na qual D. Afonso é aclamado antes do início da batalha)[34]– diz-nos que “a tradição portuguesa […] fala constantemente numa aclamação pelos guerreiros depois da Batalha de Ourique”[35], também Mário Jorge Barroca nos diz que “na sequência da vitória cristã, D. Afonso Henriques foi aclamado como rei pelos seus pares”[36], parece-nos que podemos afirmar que a aclamação pós-batalha seja uma alternativa mais natural e lógica.

Ferido o orgulho almorávida nos campos de Ourique estes apressaram-se em responder aos portugueses, no ano seguinte Ibn Umar reúne os mouros de Badajoz, Évora e Santarém e ataca o Castelo de Leiria que cai em mãos muçulmanas. D. Afonso Henriques que se encontrava na fronteira galega teve que regressar ao Centro, reconquistando o castelo ao qual outorgou foral em 1142. Continuou a reforçar o povoamento e defesa da zona da Ladeia, dificultando o acesso dos mouros a Coimbra[37].  Mesmo assim em 1144 os almorávidas lançam ainda uma expedição contra Soure, nas imediações de Coimbra, num dos últimos movimentos ofensivos enquanto o seu império se desmoronava[38]. Nestes anos o panorama peninsular mudava rapidamente, pois em 1143 havia morrido o emir Ibn Yusuf, as lutas internas travadas em torno da sucessão levaram à eclosão de movimentos independentistas no al-Andalus, que resultaram nas “novas taifas”, e na ascensão da dinastia dos almoádas que mais tarde voltariam a unificar o al-Andalus.[39]

Ourique terá por isso sido “mais um prego no caixão” dos poderosos almorávidas, é no seguimento desta batalha e perante o enfraquecimento do Islão peninsular que Afonso Henriques terá apostado na estratégia ofensiva em direção à linha do Tejo que se materializou logo em 1142 numa tentativa falhada de tomar Lisboa com auxílio de uma frota de cruzados[40], e depois com a conquista de Santarém e a conquista de Lisboa em 1147.

 

Notas:

[1] José Mattoso, História de Portugal Vol.2, p.49

[2] José Mattoso, Afonso Henriques, p. 117

[3] Mário Jorge Barroca, Nova História Militar de Portugal Vol. 1, p.42

[4] Miguel Gomes Martins, De Ourique a Aljubarrota, p. 41

[5] Mário Jorge Barroca, Nova História Militar de Portugal Vol. 1, p.43

[6] José Mattoso, Afonso Henriques, p. 118

[7] Mário Jorge Barroca, Nova História Militar de Portugal Vol. 1, p.81

[8] Alexandre Herculano, História de Portugal desde o começo da monarchia até ao fim do reinado de Afonso III, Tomo III, p.167; disponível em: http://purl.pt/325/4/hg-27283-p/hg-27283-p_item4/hg-27283-p_PDF/hg-27283-p_PDF_24-C-R0150/hg-27283-p_0000_capa-g_t24-C-R0150.pdf

[9] Trajeto descrito por Miguel Gomes Martins, De Ourique a Aljubarrota, p. 42

[10] Miguel Gomes Martins, De Ourique a Aljubarrota, p. 43

[11] José Mattoso, Afonso Henriques, p. 118

[12] José Mattoso, Afonso Henriques, p. 118

[13] Miguel Gomes Martins, De Ourique a Aljubarrota, p. 43

[14] Garcia Fitz, Castilla y León frente al Islam: estrategias de expansión y tácticas militares (siglos XI-XIII), p.140

[15] Mário Jorge Barroca, Nova História Militar de Portugal Vol. 1, p.79

[16] Miguel Gomes Martins, De Ourique a Aljubarrota, p. 44

[17] Garcia Fitz, Castilla y León frente al Islam: estrategias de expansión y tácticas militares (siglos XI-XIII), p.140

[18] Miguel Gomes Martins, De Ourique a Aljubarrota, p. 18

[19] Mário Jorge Barroca, Nova História Militar de Portugal Vol. 1, p.88

[20] Mário Jorge Barroca, Nova História Militar de Portugal Vol. 1, p.90

[21] http://warfare2.netai.net/12/Beatus-Rylands-Latin_Ms8-206v.htm

[22] http://warfare2.netai.net/13/Beatus-1220-MsM.429-f149v-Siege_of_Jerusalem.htm

[23] http://warfare2.netai.net/Beatus.htm

[24] David Nicolle & Angus McBride, The Moors: The Islamic West, p.22

[25] David Nicolle & Angus McBride, The Moors: The Islamic West, p.12

[26] http://warfare2.netai.net/Cantiga/Cantigas_de_Santa_Maria-099-1.htm

[27] David Nicolle & Angus McBride, The Moors: The Islamic West, p.23

[28] a descrição que se segue da batalha é inteiramente baseada na reconstituição feita pelo Professor Miguel Gomes Martins, na sua obra “De Ourique a Aljubarrota: A Guerra na Idade Média”, à qual acrescentamos apenas algumas notas e menções.

[29] Maria João Branco, D.Sancho I, p.16

[30] Mário Jorge Barroca, Nova História Militar de Portugal Vol. 1, p.126

[31] José Mattoso, História de Portugal Vol.2, p.72

[32] José Mattoso, História de Portugal Vol.2, p.70

[33] José Mattoso, História de Portugal Vol.2, p.64

[34] José Mattoso, Afonso Henriques, p. 119-120

[35] José Mattoso, História de Portugal Vol.2, p.62

[36] Mário Jorge Barroca, Nova História Militar de Portugal Vol. 1, p.43

[37] Mário Jorge Barroca, Nova História Militar de Portugal Vol. 1, p.43

[38] Mário Jorge Barroca, Nova História Militar de Portugal Vol. 1, p.43

[39] José Mattoso, História de Portugal Vol.2, p.72

[40] Miguel Gomes Martins, De Ourique a Aljubarrota, p. 62

 

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