Por Rafael Pinto Borges
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A Portugalidade existe, em primeiro lugar, enquanto família de homens e mulheres. Não tem significado firme; a sua substância e definição variam de local para local, contexto para contexto, tempo para tempo. Há, contudo, caracteres profundos e estruturantes que lhe dão forma segura; esses caracteres, que constituem a essência do que é a Portugalidade, incluem frequentemente a língua, mas não têm de resumir-se a ela – e nem têm, como tantas vezes sucede, de abrangê-la. Pela Ásia, inumeráveis comunidades portuguesas sentem-se portuguesas, preservam características inquestionavelmente lusas e consideram-se emocional, religiosa, cultural e politicamente relacionadas com Portugal. E não têm, para que assim seja, de expressar-se no nosso idioma, uma vez que esse, votado a criminoso abandono de séculos, se perdeu já em grande número delas.

Portugalidade, pois, sim; Lusofonia, não. A razão de ser da escolha é, em primeiro lugar, ontológica; tem que ver com a própria natureza do espaço cultural português. Não falamos de Lusofonia porque a Portugalidade não é mera realidade linguística – e a partilha de uma língua não basta para formar uma comunidade. Sérvios, bósnios e croatas expressam-se todos no mesmo idioma, mas não têm um passado de unidade; congoleses e belgas falam francês, mas a Bélgica em pouco é devedora do Congo, e o Congo em pouco o será da Bélgica. Se a uni-lo houvesse apenas a língua, o espaço português seria, talvez, área de interesse económico, mas não possuiria caracteres de civilização. Ora, nem o português é um Esperanto antigo, nem Portugal se limitou a divulgar a língua de Camões.

Não colocamos em dúvida, evidentemente, a importância da Lusofonia – por acção de geração após geração de portugueses de todas as raças, proveniências e credos, a língua de Camões, Almada Negreiros e Machado de Assis é falada da Amazónia ao mar de Timor. A divulgação da língua foi simultaneamente causa e efeito – causa feliz e efeito grandioso – da expansão dos portugueses pelo mundo. A língua é uma das marcas, se quisermos, da portugalidade; é, também, parte relevante do sentimento de unidade que perpassa os povos lusíadas. No presente, é falada por 300 milhões de homens e mulheres; no futuro, estará nas bocas de 400, talvez 500 milhões de pessoas. Será, mais ainda que nos nossos dias, uma preciosa ferramenta de intercâmbio cultural e intelectual, será, como foi já no passado, o grande idioma do hemisfério sul. Não rejeitamos o termo “Lusofonia” por desprezarmos a língua, mas por a considerarmos apenas parte – parte significativa, mas parte ainda assim – da essência do mundo português.

Afirmá-lo é afirmar a realidade. A Ásia é rica em Portugalidades que, por esta ou aquela vicissitude da História, já não se expressam em português. No Bangladeche, vivem 400 000 luso-católicos. No Myanmar/Birmânia, estes luso-católicos são 450 000 e descendem de gloriosa tradição de portugueses, missionadores ou de locais feitos portugueses pela persuasão do evangelizador, assim como de comerciantes e soldados ao serviço da nobre nação birmanesa. Não se expressam em português, mas a sua portugalidade profunda, frequentemente convicta e orgulhosa, é-nos revelada pelos seus nomes ainda indiscutivelmente portugueses. Comanda a comunidade cristã bangla o Cardeal Patrick d’Rozario; a sé de Chittagong chama-se ainda, embora a cidade não seja portuguesa há quatrocentos anos, “Igreja Portuguesa”. Não merece a designação por ter sido construída por portugueses vindos de Portugal – o edifício é recente, talvez do século XIX, e o seu desenho tem mais de inglês que de nosso. É portuguesa por ser a igreja da comunidade portuguesa: gente que há séculos vive sob governo que não o nosso e cujo idioma nos é inintelegível, mas que continua a sentir-se tão portuguesa quanto um lisboeta ou um minhoto.

Os exemplos desta verdade grandiosa estão por toda a Ásia. Malaca, por nós perdida em 1641, preserva ainda um bairro português – o Kampung Portugis – e um crioulo português, o Papiá Kristang. Na Índia, no Ceilão, no Bangladeche, na Birmânia, na China, na Tailândia ou em Timor, é-se português com uma intensidade que não pode deixar de chocar os portugueses europeus. Em 2017, espectáculo comovente: por ocasião da visita do Duque de Bragança, o Senhor Dom Duarte Pio, ruas cheias em Banguecoque, capital tailandesa, para receber o herdeiro dos reis de Portugal. Mar de faces distintamente mestiças – verdadeiras sínteses humanas entre a Europa e a Ásia – carregava bandeiras portuguesas e thai, assim como cartazes com os nomes de família. Ali poucos se expressariam no nosso idioma, mas todos eram “de Horta”, “Rodrigues”, “Saldanha” e “da Cruz”. Todos eram portugueses.
Abandonadas por Portugal à sua sorte, as comunidades luso-asiáticas contam consigo e mais ninguém para a defesa da sua cultura. Criaram, com delegados de todas as partes do continente, um Congress of Asian Portuguese Communities, organização presidida por Xanana Gusmão. Se em Portugal abundam aqueles que duvidam da portugalidade destas comunidades, as próprias respondem com tonitruantes manifestações de portuguesismo: embora sofrendo o desinteresse de Lisboa e a inconsciência da maioria dos cidadãos do moderno Estado português, luso-malaios, macaenses, timorenses, bangla-portugueses, luso-tailandeses, luso-cambodjanos, luso-indonésios, luso-cingaleses e indo-portugueses são, sentem-se e afirmam-se portugueses. Tanto o são, tanto o sentem e tanto o afirmam que a si mesmos se chamam Asian Portuguese.

 

Rafael Pinto Borges

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