Por Nova Portugalidade
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Um povo que há mais de oito séculos existe como estado independente, quase com a naturalidade com que respira, e desde finais do século XIII mantém inalterados os marcos do seu lar. Formou-se sobre a ossatura da rede viária romana, em volta de um porto que lhe deu o nome; mas saindo e ficando nas serras. Cortou com os seus irmãos de língua e religião, indo integar para sul gentes de outra civilização; e nessa descida constela-se ao redor de outro porto, Lisboa, embora o espaço nacional seja configurado pelos castelos e concelhos. Depois, as vilas vencem os castelos, os senhores desligam-se em parte da função militar, e como proprietários fundiários marcam a paisagem com os solares, enquanto mercadores e artífices, tão-só em uma ou duas cidades mas em todo um conjunto de vilas, mercantilizam a sociedade e a civilização, englobando os próprios cavaleiros e eclesiásticos. As gentes embarcam constantemente a construir impérios tenazes mas que os tempos derrubam, e constantemente partem a repartir-se em pedaços pelo mundo, para de crise em crise regressar ao torrão ou saltar para outros cantos do globo.

Entre dispersão e confinamento, difícil identidade. Integrando-se nas outras sociedades e civilizações, tanta vez para não regressar, haurindo de fóra recursos, meios, maneiras, conserva-se arreigado em legados que lhe servem de cerne, porém deita facilmente pela borda fóra o que julgaríamos vir-lhe de raiz. Plástico na imitação, sem se alcandorar a creações de cumeada, imprime a tudo o seu cunho, modesto embora, perpetua e espalha entre os outros a sua língua e certos modos de ser e agir, destrói o que se não compadece com os seus preconceitos.

Nem de arroubos místicos nem de disciplina científica, avesso à atitude racionalista conquanto capaz de adoptar inovações práticas, sem jamais se dispor a resolver de frente os problemas cruciais da nação e da sua terra, é mercador astuto a tratar com o real mas não perde tempo na análise-experimentação. Guerreiro audaz e eficiente, deixa-se envolver na mercancia, ou prefere a arte da navegação, não se sabendo se perde os impérios porque se mercantilizou ou porque não se assumiu plenamente como comerciante, de um comércio que elevou a construtor de civilizações. Não se enleva no fantástico, cumpre mais os ritos do que vive a religião, é pessimista sem deixar de ser aventureiro, cauteloso e improvisador. Tende a adormecer a unidade nacional na unanimidade sacralizada, e assim a esfrangalhar aquela sob o peso do totalitário; enreda-se em regras e depois tudo inventa para não as respeitar, vivendo desajeitadamente na desordem. Bate-se todavia pela sua liberdade, a que chama pátria, e a vontade dos cidadãos tem alternado com o poder dos barões para sustentar a nação de profundas estruturas dir-se-ia que imobilizadas e ao mesmo tempo lançando-se em novos rumos segundo os ventos do largo.

É o Amadis e Fernão Lopes, Gil Vicente e Camões, a Peregrinação e Fernando Pessoa, são os roteiros, manuais náuticos, sumas do mundo, livros de viagens, os painéis de Nuno Gonçalves e os retratos de Columbano, a Batalha e a Torre de Belém, os Jerónimos e a igreja da Misericórdia da Guarda, é a cartografia quinhentista. Mas é também o pelourinho de Sortelha ou de Povos, a fonte de João Lopes em Viana ou a monumental de Sto Antão do Tojal, os solares magníficos de Ponte de Lima, do vale do Vouga, de São João da Pesqueira ou de Mangualde, ou as construções solarengas de pedra de Terras do Basto ou Fonte Arcada, os milharais e as latadas de vinho, a transhumância serrana. Fábricas, raras, industrializações várias vezes retomadas, sempre incompletas, difíceis, apesar do slinhais e canadas da Mesta, sobretudo das Ribeiras de naus e caravelas. Para a cultura universal contribui com momentos altos: como o da invenção da caravela e da náutica astronómica, da cronística de Fernão Lopes e das tábuas de Nuno Gonçalves; ao abrir a Era Quinhentista, o mapa-do-mundo, as geografias e etnografias à escala do orbe, os autos vicentinos, o Esmeraldo. Para a segunda metade do século XVI, a invenção da viagem científica por D. João de Castro, a História Trágico-Marítima, Mendes Pinto crítico e prodigiosamente universalista, o espírito científíco-prático de Garcia de Orta, os Lusíadas e a Lírica camoneana, o Soldado Prático. Decisiva tomada de consciência da humanidade pela Europa, em que esta se põe em causa a si própria e vai aos outros buscar modelos, critica a expansão que é a sua epopeia.

Este povo, confrontado subitamente com um mundo que mudou inexoravelmente e do âmago, e na mudança se instalou, do fundo da sua tradicionalidade rotineira quere galgar mais rápido do que os que o desafiam; mas transforma-se antes nas suas relações sociais do que nas estruturas, e desatina-se. Precisa de reencontrar os esforços dos que através dos tempos foram teimosamente estudando a realidade nacional com toda a ferramenta da cultura universal, a fim de proporem rumos de modernidade que não cortassem com os legados recebidos e conseguissem a tão difícil eficiência. O desafio está em não deixar de ir buscar a seiva às raízes mas saber modelar uma nova pátria segundo as exigências do porvir. Pátria, lembre-se, de oito séculos, onde agora pela primeira vez é obrigado a resolver os seus problemas sob pena de perecer. Resolvê-los não é importar soluções e modelos, apoiar-se nos outros desleixando-se no dolce far niente é ser capaz de criar e pelo seu trabalho construir uma sociedade equânime e de fraternas relações, na cidadania, onde se vá realizando a civilização da dignidade, com novos valores ao serviço da pessoa humana.

 

Por Vitorino Magalhães Godinho (1918-2011)

in Mito e Mercadoria, Utopia e Prática de Navegar, Séculos XIII-XVIII. Lisboa: Difel, 1990, pp. 9-11.

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