Por Nova Portugalidade
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Ao longo da história, a diplomacia brasileira orientou nossa política externa em muitos sentidos, mas quase sempre de maneira responsável. Mesmo quando se optou por uma Política Externa Independente, seja sob a égide do terceiro mundismo, ou sob a égide do universalismo, tudo sempre foi feito de maneira muito gradual e condizente com nossa posição e nível de força.

Mesmo a profundamente ideologizada diplomacia petista demorou muito tempo para engrenar na linha mais ideológica. Por exemplo, a intervenção do Brasil na questão Turca com o Irã, certamente gerou alguns constrangimentos de lado-a-lado, mas ela em momento algum trouxe ameaça bélica para o Brasil, pois tudo sempre fora feito por meio de diálogo e diplomacia.

A novidade em relação a desastrada política externa de Araújo é que ela é radical, repentina e beligerante. A primeira tentativa de acordo que Araújo fechou como ministro das relações exteriores, foi a desautorizada posteriormente, promessa de apoio militar brasileiro em caso de incursão militar americana na Venezuela.
Se durante os anos do PT o Brasil deu as costas a Israel e abraçou a causa Palestina; uma inversão de 180º ocorreu: O Brasil passou a apoiar os israelenses contra os palestinos. Se o Brasil na era PT deu as costas ao mundo e fechou-se no Mercosul, abrindo-se no máximo aos BRICs, o novo governo menospreza seus vizinhos e procura bajular o tio Sam torto e a direito.

A questão Venezuelana é simbólica. Saímos dos afagos PTistas à quase guerra contra os venezuelanos com Maduro ponto misseis de longo alcance apontados para Belém do Pará e Manaus.

Trocou-se uma ideologia pela outra. Não é de se admirar que a diplomacia mais racional que tivemos nos últimos tempos fora a do governo Temer, que trazendo o Mercosul de volta ao campo democrático, procurou soluções diplomáticas para questão venezuelana, como embargos e a suspensão do bloco. Ocorreu também que o Brasil voltou oficialmente a adotar a posição de dois Estados na questão israelo-palestina, além de procurar mercados com a União Européia e conciliando ainda por cima China e Estados Unidos.

Mas eu creio que o Brasil pode um pouco mais em termos de política externa, e tenho duas bases para pensar isso:

  1. O universalismo do general Figueiredo – Essa forma de diplomacia defendia em seu contexto geopolítico (a Guerra Fria), que o Brasil deveria procurar os melhores acordos comerciais e políticos, independente se no ocidente capitalista ou com os países da cortina de ferro. O café brasileiro nestes tempos chegou a responder por 80% do café consumido na Polônia, tornando-se um mercado interessante.
  2. O segundo ponto é o luso-hispanismo – Por sua vez essa orientação entende que o Brasil, assim como seus vizinhos, fazem parte de um contexto cultural ibérico; isto significa que apesar do Brasil estar aberto ao diálogo e a negociação com todos os países, que ele dará prioridade às suas raízes e tradições favorecendo os países amigos por ordem de proximidade cultural e geográfica com quem desenvolvemos laços históricos. Desta maneira Portugal, os nossos vizinhos da América do Sul e Latina, as ex-colônias portuguesas na África, Timor Leste e a Espanha são amigos prioritários nas nossas negociações.

Essa abordagem nos dá certas instituições já existentes como passíveis de diálogo: O Mercosul – Bloco comercial que abriga o maior contingente comercial da América do Sul. A aliança do Pacífico, que engloba países amigos andinos. Por manter uma boa relação com Portugal e Espanha, poderíamos ter facilidades no diálogo com a União Européia, sobretudo se levarmos em consideração que temos a Guiana Francesa bem na nossa fronteira norte. Com nossos irmãos angolanos e moçambicanos teríamos muito a oferecer. Eles têm um mercado consumidor em crescimento para manufaturas e eletrônicos que seria de grande valia para as nossas indústrias, e as deles seriam grandemente beneficiadas ao fornecer insumos para a as nossas.

Nossas relações com os Estados Unidos, com a China e com a Rússia, que não guardam proximidade cultural nem geográfica conosco, seria a do universalismo, procuraremos em todos o melhor que tem a oferecer. E ofereceremos a todos o que desejarem de nós em boa fé.

Saindo um pouco da concretude e do pragmatismo, e falando um pouco mais em ideais, seria possível ainda pensar mais em longo prazo. Uma bela e moral ideia, seria talvez de algum dia, formar-se uma organização militar de mútua defesa dos países luso-hispânicos, em moldes similares a OTAN/NATO. Contudo, focado em construir um verdadeiro e competitivo poder militar no Atlântico Sul, de modo a garantir a soberania dos países de tradição luso-hispânica na América, na África e também na Península Ibérica. Esse acordo acabaria tendo como fonte de auxílio um país irmão como o Brasil, ou os demais países da América do Sul, e não um Império muitas vezes pouco afável como os Estados Unidos.

Um banco de desenvolvimento conjunto como alternativa ao FMI também seria uma possibilidade, dado que seria positivo não só para os países da América Latina, mas como para os países da África que compartilham uma longa história conosco e que certamente prezariam muito por nossa ajuda. Tudo isso pode ser longínquo e por demais hipotético, mas é uma boa meta para se desejar.

Mas o ponto mais importante, é que a imagem que o Brasil grande que eu gostaria de ver projetada no mundo, não é de maneira nenhuma a de um Império com armas apontadas para os rivais. Não quereríamos uma doutrina Monroe para garantir a lealdade dos nossos companheiros de continente. Não! Nossas armas são para a nossa defesa, mas também para a vossa. Nossos braços são para lutar por nós, mas também para lutar por vocês. E tudo que o Brasil pediria seria reciprocidade. Idealista? Sim, mas sem saber onde chegar, não há razões para desenhar trilhas e mapas.

 

Arthur Rizzi Ribeiro

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