Por Rafael Pinto Borges
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O Brasil, em lamentável gesto de lusofobia e desprezo pela realidade histórica, quis mitificar a figura de Zumbi dos Palmares e fazer da data da sua derrota e morte, o 20 de Novembro, «Dia da Consciência Negra». Ora, um mal nunca vem só, e a estupidez é, talvez, a mais infecciosa das enfermidades. Tanto assim é que se vem expandindo pelo espaço português a veneração de Zumbi – não é já somente em terras brasileiras que se cultua a sua figura; o absurdo chegou a Portugal, trazido por seitas revisionistas, e em Portugal vem crescendo. Por ocasião do último 20 de Novembro, algumas agremiações deste tipo lançaram um «Manifesto colectivo do 20 de Novembro em Lisboa», evento a que se deu o nome, aliás patético, de «Aquilombando a consciência». Já o sítio web «Esquerda Online» publicava um texto intitulado «Sobre a importância de Zumbi dos Palmares para a nossa luta». O que se procura é a transformação da memória de Zumbi e do Quilombo dos Palmares em arma para os combates do nosso tempo.
 
As batalhas da História e da cultura, entediando embora a maioria, são importantes por nelas se decidir a «opinião pública» – é dizer, o que julgam as massas dos grandes assuntos. A vida, conduta e legado de Zumbi dos Palmares não é, neste particular, excepção, tanto mais que a sua memória foi transformada, por agentes facciosos e desinteressados da realidade histórica, em poderoso símbolo contra o império, a colonização portuguesa do Brasil e a auto-consciência daquele país como a de uma «democracia racial» formada, ou parida, pelo encontro harmonioso entre o português branco, o africano negro e o ameríndio vermelho. Num monumento que lhe ergueram, pode ler-se o seguinte – e revelador – texto: «É tempo de tirar nossa nação das trevas da injustiça racial. Nasceu livre, em 1655, na Serra da Barriga, União dos Palmares, Alagoas. Neto de Aquatune, não permitiu a submissão do seu povo ao jugo da Coroa Portuguesa, pois queria a liberdade para todos, dentro ou fora do quilombo. Persistiu na luta e tornou-se líder do quilombo, sendo ferido em 1694, quando a capital Palmares foi destruída. Em 20 de Novembro de 1695, foi morto e decapitado. Após 300 anos, a data da morte desse líder da resistência negra foi instituída, pelo movimento negro, como o Dia Nacional da Consciência Negra.» Esta narrativa, que vem sendo disseminada entre brasileiros e, agora, portugueses, é falsa. O mito de Zumbi é uma antítese artificial e manhosamente engendrada do Brasil que Freyre descrevia em «Casa Grande e Senzala», e que é o Brasil que a realidade nos apresenta – um país onde inexistem as divisões raciais, onde nem uma só alma se considera «afro-brasileira» e onde todos se sentem igualmente brasileiros independentemente da ancestralidade ou da cor da pele. Eis porque é tão imperiosa a resistência à mitologia lusófoba.
 
A questão força-se sobre nós: quem foi Zumbi dos Palmares? Zumbi, aí podemos concordar todos, nasceu no «Quilombo dos Palmares», não foi nunca escravo e atingiu, por meios nunca perfeitamente esclarecidos, a liderança do quilombo. O «Quilombo dos Palmares» era, podemos concordar também, uma confederação de aldeamentos desobedientes em relação à Coroa e criados por escravos fugidos dos seus senhores. No seu auge, a confederação rebelde chegou a ter poder sobre mais de trinta mil almas, e perfazia-se de dez macombos, ou aldeamentos. Zumbi não era, todavia, um «proto-abolicionista»: não se lhe conhece, nem nas ideias nem na prática, indício algum de oposição à escravidão, e o «Quilombo» que governou não era um refúgio anti-escravista, mas uma tirania brutal onde a escravatura era abundantemente praticada. Os quilombolas, ou habitantes do Quilombo, tinham eles mesmos escravos. Explicava em obra recente o brasileiro José de Souza Martins: “Os escravos que se recusavam a fugir das fazendas e ir para os quilombos eram capturados e convertidos em cativos dos quilombos. A luta de Palmares não era contra a iniquidade desumanizadora da escravidão. Era apenas recusa da escravidão própria, mas não da escravidão alheia. As etnias de que procederam os escravos negros do Brasil praticavam e praticam a escravidão ainda hoje, na África. Não raro capturavam seus iguais para vendê-los aos traficantes. Ainda o fazem. Não faz muito tempo, os bantos, do mesmo grupo linguístico de que procede Zumbi, foram denunciados na ONU por escravizarem pigmeus nos Camarões”. (José de Souza Martins, Divisões Perigosas, Ed. Civilização Brasileira, Rio, 2007, p. 99). Aos negros escravizados por Zumbi e cúmplices, hoje grotescamente exaltados como heróis da luta contra a escravidão, restava o acatamento ou, em caso de fuga, a possibilidade de uma morte brutal: «Se algum escravo fugia dos Palmares, eram enviados negros no seu encalço e, se capturado, era executado pela ‘severa justiça’ do quilombo». (Edison Carneiro, O Quilombo dos Palmares, Ed. Civilização Brasileira, 3a ed., Rio, 1966, p. 4). Em 1694, terminou o regime de terror do Quilombo: comandada por Domingos Jorge Velho, a tropa luso-brasileira capturou e destruiu Palmares, onde o homem negro era brutalizado pelo homem negro. No ano seguinte, Zumbi, que tinha fugido de Palmares, foi decapitado. A sua cabeça foi enviada para Salvador, onde se manteve exposta até apodrecer.
 
 
Coisa extraordinária e digna de verdadeira estupefacção, pois, que o líder esclavagista de um movimento esclavagista, detentor de milhares de escravos e responsável pelo rapto e submissão de milhares de seres humanos, seja hoje exaltado como herói da luta contra a escravidão. Trata-se de fraude monumental e lavrada por aqueles a quem a política e a mitificação do passado importa mais que a verdade dos factos e da História.
 
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